A anemia na gravidez é uma alteração relativamente frequente e pode ser identificada durante o pré-natal por meio do hemograma, principalmente pela redução da concentração de hemoglobina.
Entretanto, encontrar uma hemoglobina baixa não responde sozinho a uma pergunta fundamental:
Qual é a causa da anemia?
A deficiência de ferro é uma das causas mais importantes durante a gestação, mas não é a única. Deficiência de vitamina B12 ou folato, hemoglobinopatias, sangramentos, processos inflamatórios e outras condições também podem causar anemia. A própria Organização Mundial da Saúde ressalta que a anemia possui múltiplas causas e não deve ser tratada como sinônimo automático de deficiência de ferro.
Além disso, durante a gravidez ocorre uma expansão fisiológica do volume plasmático que modifica a concentração dos componentes sanguíneos.
Por isso, na minha interpretação técnico-laboratorial, considero inadequado olhar apenas para a hemoglobina e concluir:
“Está baixa, portanto falta ferro.”
O raciocínio correto começa pelo hemograma, mas pode precisar incluir ferritina, índices hematimétricos, histórico da gestante e outros exames.
O que é anemia na gravidez?
Anemia significa redução da concentração de hemoglobina abaixo do limite utilizado para aquela população e situação clínica.
A hemoglobina está presente dentro das hemácias e participa do transporte de oxigênio pelo organismo.
Durante a gestação, o corpo precisa se adaptar ao aumento das necessidades maternas e fetais. Ao mesmo tempo, o volume sanguíneo aumenta significativamente.
O plasma aumenta proporcionalmente mais do que a massa de hemácias.
Como consequência, ocorre uma redução relativa da concentração de hemoglobina e hematócrito.
Esse fenômeno é frequentemente chamado de:
Hemodiluição fisiológica da gravidez.
Ou
Anemia fisiológica da gestação.
Entretanto, essa adaptação fisiológica não deve ser utilizada para justificar qualquer hemoglobina baixa.
Uma redução além do esperado precisa ser investigada.
Qual é o valor de hemoglobina considerado anemia na gravidez?
Essa pergunta exige atenção porque existem diferenças entre recomendações.
A OMS publicou em 2024 uma atualização específica dos limites de hemoglobina e mantém os seguintes pontos de corte para gestantes:
| Período da gestação | Anemia, segundo a OMS, 2024. |
|---|---|
| Primeiro trimestre | Hemoglobina < 11,0 g/dL |
| Segundo trimestre | Hemoglobina < 10,5 g/dL |
| Terceiro trimestre | Hemoglobina < 11,0 g/dL |
A redução do ponto de corte no segundo trimestre leva em consideração justamente a maior hemodiluição observada nessa fase.
Por outro lado, recomendações da FIGO (International Federation of Gynaecology and Obstetrics), publicadas em 2025, propõem utilizar hemoglobina abaixo de 11,0 g/dL em todos os trimestres, buscando uma abordagem universal para detecção da anemia.
Portanto, encontrar:
10,8 g/dL no segundo trimestre.
Pode receber classificações diferentes dependendo do protocolo utilizado.
Esse é um excelente exemplo de por que o resultado precisa ser interpretado com a idade gestacional e a referência adotada pelo serviço.
Por que a hemoglobina pode diminuir no segundo trimestre?
A expansão do volume plasmático começa relativamente cedo na gravidez e se intensifica durante o segundo trimestre.
A produção de hemácias também aumenta, mas não na mesma proporção.
Imagine que temos a mesma quantidade de pigmento vermelho diluída em um volume maior de líquido.
A concentração medida será menor, mesmo sem perda proporcional daquele pigmento.
É uma analogia simples, mas ajuda a compreender por que uma redução moderada de hemoglobina pode ocorrer fisiologicamente.
Porém, quando as reservas de ferro são insuficientes para acompanhar o aumento da produção eritrocitária, pode surgir deficiência de ferro e, posteriormente, anemia ferropriva.
Qual é a causa mais comum de anemia na gravidez?
A deficiência de ferro está entre as principais causas.
As necessidades de ferro aumentam durante a gravidez para sustentar:
- Expansão da massa eritrocitária materna;
- Placenta;
- Desenvolvimento fetal;
- Formação das reservas fetais;
- Perdas relacionadas ao parto.
A OMS estima que a deficiência de ferro seja responsável por uma parcela importante da anemia observada durante a gestação.
Entretanto:
anemia não é sinônimo de deficiência de ferro.
Essa distinção é particularmente importante antes de interpretar uma ferritina ou decidir quais exames adicionais são necessários.
Quais outras causas de anemia podem ocorrer na gestação?
Além da deficiência de ferro, podem existir:
- Deficiência de folato;
- Deficiência de vitamina B12;
- Hemoglobinopatias, como doença falciforme e talassemias;
- Sangramentos;
- Doenças inflamatórias;
- Doença renal;
- Alterações da medula óssea;
- Algumas infecções;
- Causas combinadas.
O próprio Ministério da Saúde inclui o hemograma e a avaliação de hemoglobinopatias entre os exames importantes do pré-natal.
Quando a anemia não apresenta o padrão esperado para deficiência de ferro ou não responde conforme previsto, a investigação precisa ser ampliada.
Quais exames ajudam a investigar anemia na gravidez?
O primeiro exame costuma ser o hemograma completo.
Ele fornece muito mais informações do que apenas a hemoglobina.
Entre os parâmetros importantes estão:
Hemoglobina (Hb)
Mostra a concentração da proteína responsável pelo transporte de oxigênio.
Hematócrito (Ht)
Representa a proporção do sangue ocupada pelas hemácias.
VCM
Avalia o volume médio das hemácias.
HCM
Estima a quantidade média de hemoglobina por hemácia.
RDW
Mostra a variação no tamanho das hemácias.
Contagem de hemácias
Pode contribuir para diferenciar determinados padrões hematológicos.
Quando existe suspeita de deficiência de ferro, a ferritina é um dos exames mais úteis.
Como é feita a coleta para investigar anemia na gravidez?
A investigação normalmente começa com uma coleta de sangue venoso no braço da gestante.
Para o hemograma, o sangue é colocado em tubo contendo anticoagulante apropriado, geralmente EDTA.
No laboratório, analisadores hematológicos realizam a contagem e caracterização das células sanguíneas, fornecendo parâmetros como:
- Hemoglobina;
- Hematócrito;
- VCM;
- HCM;
- RDW;
- Leucócitos;
- Plaquetas.
Quando também é solicitada ferritina, geralmente é necessário outro tubo destinado à obtenção de soro ou plasma, conforme o método utilizado pelo laboratório.
Amostras adicionais podem ser necessárias caso sejam solicitados exames como vitamina B12, folato, marcadores de inflamação ou estudos de hemoglobinas.
Precisa de jejum?
O hemograma e a ferritina isoladamente geralmente não exigem jejum.
Entretanto, se outros exames forem coletados simultaneamente, o preparo deve seguir as orientações correspondentes ao conjunto de testes.
O que significa hemoglobina baixa na gravidez?
Hemoglobina abaixo do limite esperado indica anemia, mas não identifica a causa.
O próximo passo é olhar para o restante do hemograma.
Por exemplo:
Hb baixa + VCM baixo
sugere uma anemia microcítica.
A deficiência de ferro é uma causa importante desse padrão, mas talassemias também podem produzir microcitose.
Já:
Hb baixa + VCM elevado
Pode direcionar a investigação para outras causas, incluindo deficiência de vitamina B12 ou folato.
E:
Hb baixa + VCM normal
também possui diversas possibilidades.
Por isso:
VCM ajuda a classificar a anemia, mas também não fecha o diagnóstico sozinho.
O que significa VCM baixo na gestante?
O VCM baixo significa que as hemácias apresentam volume médio reduzido.
Esse padrão é chamado de microcitose.
Uma das causas mais frequentes é a deficiência de ferro.
Entretanto, microcitose também pode ser encontrada em algumas hemoglobinopatias, especialmente talassemias.
O ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists) recomenda atenção às hemoglobinopatias durante a gestação e atualmente defende que a avaliação para essas condições seja oferecida no planejamento da gravidez ou no início do pré-natal quando ainda não houver resultado prévio disponível.
Do ponto de vista laboratorial:
VCM baixo não significa automaticamente ferro baixo.
A ferritina ajuda justamente nessa diferenciação.
Para que serve a ferritina na gravidez?
A ferritina é uma proteína relacionada ao armazenamento de ferro.
Por isso, sua concentração é muito utilizada para avaliar as reservas corporais desse mineral.
Uma das situações mais interessantes é quando a gestante ainda apresenta hemoglobina preservada, mas sua ferritina já está reduzida.
Nesse estágio pode existir:
deficiência de ferro sem anemia.
Ou seja, as reservas já estão diminuindo antes que a hemoglobina caia.
Essa é uma razão importante para diferenciar:
deficiência de ferro
de
anemia ferropriva.
Ferritina baixa significa falta de ferro?
Uma ferritina reduzida é um forte indicador de deficiência de ferro.
As recomendações FIGO de 2025 utilizam ferritina abaixo de 30 µg/L (equivalente numericamente a 30 ng/mL) como critério laboratorial de deficiência de ferro no contexto discutido pela diretriz.
Entretanto, o valor precisa ser interpretado junto da situação clínica e do método do laboratório.
Além disso, existe uma característica importante da ferritina:
ela também é uma proteína de fase aguda.
Isso significa que processos inflamatórios podem elevar a ferritina.
Portanto, uma ferritina baixa é bastante informativa para deficiência de ferro, mas uma ferritina aparentemente normal ou elevada precisa ser interpretada com cautela quando existe inflamação.
Ferro sérico baixo confirma anemia ferropriva?
Não sozinho.
O ferro sérico mede o ferro circulante ligado principalmente à transferrina.
Sua concentração pode variar ao longo do dia e sofrer influência de diversos fatores.
Por isso, não considero adequado diagnosticar deficiência de ferro apenas porque apareceu:
“ferro sérico baixo”.
Dependendo da situação, a avaliação pode incluir:
- Ferritina;
- Transferrina;
- Capacidade total de ligação do ferro;
- Saturação da transferrina;
- Proteína C reativa;
- Hemograma;
- Histórico clínico.
A interpretação conjunta é muito superior à leitura isolada de um único marcador.
Ferritina baixa com hemoglobina normal é anemia?
Não necessariamente.
Esse é um conceito importante.
Pode existir:
ferritina baixa
hemoglobina ainda normal
=
deficiência de ferro sem anemia.
A anemia aparece quando a redução de ferro já compromete suficientemente a produção de hemoglobina.
Portanto, deficiência de ferro e anemia ferropriva representam estágios diferentes.
Como é o hemograma da anemia ferropriva?
O padrão clássico pode apresentar:
- Hemoglobina reduzida;
- Hematócrito reduzido;
- VCM baixo;
- HCM baixa;
- Aumento do RDW;
- Ferritina reduzida.
Mas nem todas as alterações aparecem simultaneamente, especialmente no início.
Na deficiência de ferro inicial, a ferritina pode diminuir antes da hemoglobina.
Posteriormente, conforme a deficiência progride, os índices hematimétricos começam a se modificar.
É por isso que olhar apenas para “hemoglobina (Hb)” pode perder parte da história.
RDW alto significa falta de ferro?
O RDW mostra a variação do tamanho das hemácias.
Na deficiência de ferro, pode ocorrer aumento do RDW porque novas populações de hemácias passam a apresentar tamanhos diferentes.
Entretanto:
RDW alto não é específico de deficiência de ferro.
Ele deve ser interpretado junto de VCM, hemoglobina, ferritina e restante do hemograma.
Quais são os sintomas da anemia na gravidez?
Anemia leve pode não causar sintomas claros.
Quando existem manifestações, podem ocorrer:
- Cansaço;
- Fraqueza;
- Menor tolerância aos esforços;
- Tontura;
- Palpitações;
- Falta de ar aos esforços;
- Palidez.
O problema é que vários desses sintomas também podem ocorrer durante uma gravidez sem anemia.
Portanto:
sintomas não substituem o hemograma.
E, da mesma maneira, um hemograma alterado precisa ser relacionado à intensidade dos sintomas.
Anemia na gravidez é perigosa?
A gravidade depende da intensidade, causa, duração da anemia, idade gestacional e condições clínicas da gestante.
A anemia ferropriva durante a gravidez tem sido associada a maior risco de resultados maternos e perinatais desfavoráveis. A OMS e a FIGO destacam a importância da prevenção, identificação e tratamento adequado da anemia durante a gestação.
Quanto mais intensa a anemia, maior tende a ser a preocupação.
Uma anemia importante também reduz a reserva fisiológica da gestante diante de uma eventual perda sanguínea no parto.
Toda anemia na gravidez é causada por alimentação inadequada?
Não.
Embora a ingestão de ferro seja importante, reduzir toda anemia gestacional à alimentação seria simplificar demais o problema.
Uma pessoa pode apresentar alimentação adequada e ainda desenvolver deficiência de ferro devido ao grande aumento da necessidade durante a gravidez.
Além disso, outras causas de anemia não serão corrigidas simplesmente aumentando alimentos ricos em ferro.
É justamente por isso que o diagnóstico etiológico é importante.
Quais alimentos possuem ferro?
As fontes alimentares podem ser divididas de forma simplificada em:
ferro heme, encontrado principalmente em carnes;
e
ferro não heme, presente em alimentos vegetais como leguminosas e vegetais verde-escuros.
A absorção não é igual entre essas formas.
Além disso, a dieta faz parte da prevenção e do cuidado, mas não deve ser utilizada isoladamente como substituto do tratamento quando existe anemia diagnosticada.
Toda gestante precisa tomar ferro?
Existem políticas de suplementação profilática durante a gravidez.
A OMS recomenda suplementação diária de 30 a 60 mg de ferro elementar associada a 400 µg de ácido fólico durante a gestação como estratégia populacional para prevenção de anemia materna e outros desfechos.
No Brasil, a Linha de Cuidado do Pré-Natal de Baixo Risco do Ministério da Saúde prevê sulfato ferroso profilático correspondente a 40 mg de ferro elementar por dia a partir da 20ª semana, dentro da estratégia nacional.
Além disso, o Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes, republicado em 2026, mantém orientações específicas para suplementação de ferro e ressalta que casos de anemia diagnosticada precisam de tratamento definido pelo profissional responsável.
Portanto, é importante diferenciar:
suplementação profilática
De
tratamento da anemia ferropriva.
As doses e objetivos não são necessariamente os mesmos.
Posso aumentar o ferro por conta própria se a hemoglobina estiver baixa?
Não é uma boa estratégia.
Primeiro porque hemoglobina baixa não confirma que a causa seja deficiência de ferro.
Segundo porque existem doenças em que o metabolismo do ferro é diferente.
E terceiro porque dose terapêutica, duração e via de administração precisam considerar a intensidade da anemia, exames laboratoriais, tolerância e idade gestacional.
Em pessoas com algumas hemoglobinopatias ou histórico de múltiplas transfusões, por exemplo, a suplementação indiscriminada merece atenção especial. A FIGO recomenda confirmar deficiência de ferro em gestantes com hemoglobinopatias antes de suplementação específica quando isso for possível.
Ferro oral pode causar efeitos colaterais?
Sim.
Preparações orais de ferro podem provocar efeitos gastrointestinais, como:
- Náuseas;
- Desconforto abdominal;
- Constipação;
- Diarreia;
- Escurecimento das fezes.
O próprio Ministério da Saúde alerta para esses efeitos na suplementação com sulfato ferroso.
Isso não significa que o suplemento deva ser interrompido por conta própria.
Quando os efeitos são importantes, o profissional pode avaliar estratégias diferentes.
Quando o ferro intravenoso pode ser considerado?
O ferro intravenoso não é necessário para todas as gestantes com anemia.
Ele pode ser considerado em determinadas situações, como intolerância importante ao ferro oral, resposta inadequada, dificuldade de absorção, anemia mais significativa ou necessidade de reposição em período mais próximo ao parto.
Recomendações atuais também evitam rotineiramente ferro intravenoso no primeiro trimestre, devido à menor disponibilidade de dados de segurança nessa fase.
A decisão deve ser individualizada.
Anemia significa que será necessária transfusão?
Não.
A grande maioria das anemias identificadas durante o pré-natal não implica automaticamente transfusão.
Transfusão sanguínea é reservada para situações específicas, considerando:
- Gravidade da anemia;
- Sintomas;
- Estabilidade clínica;
- Presença de sangramento;
- Proximidade do parto;
- Condições associadas.
Portanto, não existe uma regra simples:
“hemoglobina X = transfusão obrigatória”.
A decisão é clínica.
O hemograma deve ser repetido durante a gravidez?
Sim, o acompanhamento hematológico não se limita necessariamente à primeira consulta.
O Ministério da Saúde inclui o hemograma entre os exames essenciais do pré-natal, e protocolos frequentemente realizam nova avaliação no final do segundo trimestre ou início do terceiro.
A FIGO 2025 recomenda rastreamento com hemograma no início do acompanhamento e novamente próximo de 28 semanas.
Isso explica por que o hemograma aparece nos nossos guias de:
Exames do Primeiro Trimestre da Gravidez
E
Exames do Segundo Trimestre da Gravidez.
Anemia no terceiro trimestre merece mais atenção?
Uma anemia diagnosticada mais perto do parto merece atenção porque existe menos tempo disponível para corrigir a deficiência antes do nascimento.
Além disso, uma gestante que inicia o parto com hemoglobina reduzida possui menor reserva para tolerar eventual perda sanguínea.
Esse é um dos motivos para o hemograma ser novamente importante na transição para o terceiro trimestre da gravidez.
Hemoglobina baixa e ferritina normal excluem deficiência de ferro?
Não obrigatoriamente.
A ferritina pode aumentar em processos inflamatórios.
Nesses casos, um valor aparentemente preservado pode precisar ser interpretado junto com:
- Contexto clínico;
- Marcadores inflamatórios;
- Saturação da transferrina;
- Hemograma;
- Outros exames.
Por outro lado, se a ferritina está claramente baixa, a evidência de deficiência de ferro é muito mais direta.
Hemoglobina baixa com ferritina normal pode ser o quê?
Existem diversas possibilidades.
Entre elas:
- Anemia relacionada a inflamação;
- Deficiência de vitamina B12;
- Deficiência de folato;
- Hemoglobinopatias;
- Sangramento recente;
- Doença renal;
- Combinações de diferentes causas.
Por isso, quando a investigação não apresenta o padrão típico da anemia ferropriva, é preciso ampliar o raciocínio.
Anemia e talassemia podem parecer iguais no hemograma?
Em alguns casos, sim.
Tanto deficiência de ferro quanto determinados traços talassêmicos podem apresentar:
VCM baixo
e
HCM baixa.
Por isso, microcitose persistente com ferritina preservada merece atenção.
A avaliação de hemoglobinas pode ajudar quando existe suspeita de hemoglobinopatia. Atualmente, o ACOG recomenda oferecer testagem universal para hemoglobinopatias no planejamento da gestação ou na primeira consulta pré-natal quando não houver resultado anterior.
Resumo da interpretação
| Resultado | O que considerar inicialmente |
|---|---|
| Hb baixa + ferritina baixa | Forte suspeita de anemia por deficiência de ferro |
| Ferritina baixa + Hb normal | Pode indicar deficiência de ferro ainda sem anemia |
| Hb baixa + VCM baixo | Deficiência de ferro é importante, mas microcitose também pode ocorrer em talassemias |
| Hb baixa + VCM alto | Considerar outras causas, como deficiência de B12 ou folato |
| Hb baixa + ferritina normal/alta | Avaliar inflamação e outras causas de anemia |
| VCM baixo + ferritina preservada | Hemoglobinopatias entram no diagnóstico diferencial |
Essa tabela serve apenas como orientação inicial e não substitui a investigação etiológica.
Como eu interpreto anemia na gravidez no laboratório?
Eu começaria pela idade gestacional.
A hemoglobina não deve ser interpretada da mesma forma sem saber se a coleta ocorreu no primeiro, segundo ou terceiro trimestre.
Depois verificaria:
1. Hemoglobina e hematócrito
Existe realmente anemia segundo o critério utilizado?
2. VCM e HCM
A anemia é microcítica, normocítica ou macrocítica?
3. RDW
Existe heterogeneidade importante no tamanho das hemácias?
4. Ferritina
As reservas de ferro estão reduzidas?
5. Resultados anteriores
A hemoglobina caiu progressivamente ou já estava baixa no início da gravidez?
6. Contexto clínico
Há sangramento, inflamação, doença renal ou história de hemoglobinopatia?
Essa sequência evita uma interpretação excessivamente simplificada.
Na prática, a pergunta não deveria ser apenas:
“A hemoglobina está baixa?”
Mas:
“Por que a hemoglobina está baixa e qual padrão hematológico acompanha essa redução?”
Quando procurar avaliação mais rápida?
Uma anemia importante ou acompanhada de sintomas relevantes precisa de avaliação clínica.
O Ministério da Saúde orienta encaminhamento urgente quando a anemia ocorre com manifestações de gravidade, como dispneia importante, taquicardia, hipotensão ou outros sinais de comprometimento clínico.
Também merece atenção uma anemia que:
- É intensa;
- Piora rapidamente;
- Não responde ao tratamento esperado;
- Surge próximo ao parto;
- Ocorre junto com sangramento;
- Apresenta alterações hematológicas incomuns.
Conclusão
A anemia na gravidez não deve ser interpretada simplesmente como “falta de ferro”.
A deficiência de ferro é extremamente importante, mas existem outras causas.
O hemograma identifica a anemia e fornece pistas sobre seu padrão, enquanto a ferritina ajuda a avaliar as reservas de ferro.
Do meu ponto de vista laboratorial, três conceitos são especialmente importantes:
Hemoglobina baixa identifica anemia, mas não determina sua causa.
Ferritina baixa pode identificar deficiência de ferro antes mesmo de a hemoglobina diminuir.
E
VCM baixo não é sinônimo automático de deficiência de ferro.
Outro cuidado fundamental é considerar a idade gestacional. A OMS 2024 utiliza <11,0 g/dL no primeiro e terceiro trimestres e <10,5 g/dL no segundo, enquanto a FIGO 2025 propõe <11,0 g/dL durante toda a gestação.
Na minha leitura técnico-laboratorial, a melhor interpretação acontece quando combinamos:
hemoglobina + índices hematimétricos + ferritina + idade gestacional + histórico da paciente.
Isso permite separar melhor a hemodiluição fisiológica da gestação, a deficiência de ferro e outras causas de anemia.
Para aprofundar cada marcador, consulte também:
Hemograma Completo: Para Que Serve e Como Interpretar
Ferritina: O Que É e Para Que Serve
Ferro Sérico: Valores Altos e Baixos
e acompanhe os demais conteúdos na área de Gestação.
Dúvidas frequentes sobre anemia na gravidez
A investigação geralmente começa com uma coleta de sangue venoso no braço da gestante. O hemograma é realizado em tubo com anticoagulante apropriado, enquanto exames como ferritina normalmente utilizam outro tipo de amostra, conforme o método do laboratório.
O laboratório avalia parâmetros como hemoglobina, hematócrito, VCM, HCM e RDW, que ajudam a caracterizar o padrão da anemia.
Em geral, hemograma e ferritina isoladamente não exigem jejum.
Entretanto, se outros exames forem realizados na mesma coleta, o preparo deve seguir as orientações correspondentes ao conjunto de testes solicitados.
O ponto de corte depende da recomendação adotada e da idade gestacional.
A OMS utiliza hemoglobina abaixo de 11,0 g/dL no primeiro e terceiro trimestres e abaixo de 10,5 g/dL no segundo trimestre.
Outras recomendações podem utilizar limites diferentes. Por isso, a interpretação deve considerar o trimestre da gravidez e o protocolo utilizado pelo serviço.
Não necessariamente. A deficiência de ferro é uma causa importante de anemia na gestação, mas não é a única.
Deficiência de vitamina B12 ou folato, hemoglobinopatias, sangramentos, inflamação e outras condições também podem reduzir a hemoglobina.
Veja também nosso guia sobre hemograma completo .
Uma ferritina reduzida é um forte indicador de deficiência de ferro.
A ferritina representa as reservas de ferro e pode diminuir antes mesmo de ocorrer queda significativa da hemoglobina.
Para entender melhor esse marcador, consulte nosso conteúdo sobre ferritina .
Não necessariamente. Essa combinação pode indicar deficiência de ferro sem anemia.
As reservas de ferro podem diminuir antes que a produção de hemoglobina seja suficientemente afetada para causar anemia.
O VCM baixo indica microcitose, ou seja, hemácias com volume médio reduzido.
A deficiência de ferro é uma causa frequente, mas algumas hemoglobinopatias, como talassemias, também podem apresentar microcitose.
Por isso, VCM baixo não deve ser interpretado isoladamente como confirmação de deficiência de ferro.
Não sozinho. O ferro sérico pode variar e sofrer influência de diversos fatores.
Na investigação da deficiência de ferro, normalmente são considerados em conjunto hemograma, ferritina e, quando necessário, outros marcadores do metabolismo do ferro.
Veja também: Ferro Sérico: valores altos e baixos .
Durante a gravidez ocorre aumento do volume plasmático. Como esse aumento pode ser proporcionalmente maior do que o crescimento da massa de hemácias, ocorre uma hemodiluição fisiológica.
Esse fenômeno é mais evidente durante o segundo trimestre e ajuda a explicar por que alguns protocolos utilizam um limite de hemoglobina diferente nessa fase.
Consulte também os exames do segundo trimestre da gravidez .
Não. A chamada hemodiluição fisiológica ocorre devido às adaptações normais do volume sanguíneo da gravidez.
Já a anemia ferropriva ocorre quando existe deficiência de ferro suficiente para comprometer a produção de hemoglobina.
As duas situações podem coexistir, por isso o hemograma e a ferritina ajudam na diferenciação.
Algumas gestantes podem não apresentar sintomas, principalmente quando a anemia é leve.
Quando presentes, podem ocorrer cansaço, fraqueza, tontura, palpitações, menor tolerância aos esforços e palidez.
Como alguns desses sintomas também podem aparecer em uma gravidez sem anemia, o diagnóstico depende da avaliação clínica e laboratorial.
A importância depende da intensidade, da causa e do momento da gestação.
Anemias mais importantes podem reduzir a reserva fisiológica da gestante e merecem atenção especialmente quando identificadas próximo ao parto.
O objetivo do pré-natal é identificar e investigar a alteração com antecedência suficiente para definir a abordagem adequada.
Existem recomendações de suplementação preventiva de ferro durante a gravidez em diferentes protocolos de pré-natal.
Entretanto, suplementação preventiva e tratamento de uma anemia ferropriva diagnosticada não são necessariamente a mesma coisa. Dose, duração e estratégia devem seguir a orientação do profissional que acompanha a gestação.
Não é adequado definir a causa da anemia apenas pela hemoglobina.
Antes de modificar a suplementação, é importante avaliar se existe realmente deficiência de ferro ou outra causa para a anemia.
A interpretação pode incluir ferritina, índices hematimétricos, histórico clínico e outros exames.
O hemograma normalmente é realizado no início do pré-natal e pode ser repetido ao longo da gestação, especialmente próximo da transição para o terceiro trimestre ou quando existe alguma alteração anterior.
A frequência pode mudar conforme o resultado inicial, sintomas, tratamento realizado e protocolo adotado.
Para acompanhar o cronograma completo, consulte os exames do pré-natal .
Não obrigatoriamente. A ferritina pode aumentar em situações inflamatórias e, nesses casos, um resultado aparentemente normal pode exigir interpretação junto de outros marcadores.
Também existem diversas causas de anemia que não são relacionadas à deficiência de ferro.
Em alguns casos, sim. Tanto a deficiência de ferro quanto determinados traços talassêmicos podem apresentar VCM e HCM reduzidos.
Uma microcitose persistente com reservas de ferro preservadas pode levar à investigação de hemoglobinopatias, conforme o contexto clínico e laboratorial.
Anemia mais intensa, piora rápida dos exames, sangramento ou sintomas importantes devem receber avaliação individualizada sem demora.
Também merece atenção uma anemia que não apresenta a resposta esperada ao acompanhamento ou que é identificada próximo ao parto.
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Lincoln Soledade, – Biomédico CRBM 41556/ES. Mestrando em Gestão em Saúde Pública. Especialista em Patologia Clínica e pós-graduado em Estética Avançada, atua desde 2018 na área de diagnóstico clínico hospitalar. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado à aplicação rigorosa do conhecimento científico para promover diagnósticos precisos, contribuindo significativamente para a qualidade do cuidado em saúde.

