Exames para Pré-Eclâmpsia no 2º Trimestre: Quais Fazer?

Gestante colhendo exame de sangue para fazer o exame de pré-eclâmpsia.

A partir da 20ª semana de gestação, o corpo da mulher entra em uma fase decisiva de vigilância obstétrica. É nesse período que a pré-eclâmpsia, uma das principais causas de morbimortalidade materna e fetal no mundo, costuma dar seus primeiros sinais silenciosos.

Entender quais exames são solicitados no 2º trimestre e o que cada um deles revela ajuda a gestante a compreender seu pré-natal com mais segurança e a dialogar melhor com o obstetra. Neste guia completo, vou te evidenciar os biomarcadores mais modernos, os exames de imagem, os testes laboratoriais de rotina e os sinais clínicos que definem o diagnóstico.

O Que é Pré-Eclâmpsia e Por Que o 2º Trimestre é o Período Mais Crítico

A pré-eclâmpsia é definida clinicamente pelo surgimento de hipertensão arterial em gestante previamente normotensa, a partir da 20ª semana de gestação, geralmente acompanhada de proteinúria significativa ou de sinais de comprometimento de órgãos-alvo. Trata-se de uma condição multissistêmica, e não apenas um problema de pressão arterial isolado.

Essa hipertensão gestacional de início recente ocorre porque a placenta, em vez de se desenvolver normalmente, apresenta uma invasão trofoblástica deficiente nas artérias uterinas. O resultado é uma disfunção útero-placentária, que libera substâncias na circulação materna capazes de lesar o endotélio vascular em todo o corpo.

É por isso que a 20ª semana marca o início do rastreamento mais intenso. Antes desse marco, os sintomas costumam ser inexistentes; depois dele, cada exame de rotina passa a ter também a função de vigilância contra a pré-eclâmpsia.

Marcadores Angiogênicos e Biomarcadores: os Exames Mais Específicos do 2º Trimestre

Os biomarcadores angiogênicos representam o avanço mais relevante no diagnóstico precoce da pré-eclâmpsia nas últimas décadas. Eles permitem identificar o risco da doença antes mesmo do aparecimento da hipertensão ou da proteinúria.

Relação sFlt-1/PlGF: Como é Calculada e o Que Cada Faixa Significa

A relação sFlt-1/PlGF é obtida por meio de um exame de sangue simples, no qual o laboratório dosa separadamente as duas proteínas — sFlt-1 e PlGF, ambas em pg/mL — e divide o resultado da primeira pelo da segunda. O número final indica o quanto o fator antiangiogênico (sFlt-1) predomina sobre o fator proangiogênico (PlGF) na circulação materna.

Na prática, esse resultado é interpretado em três faixas, cada uma com uma conduta diferente; te mostro a seguir:

  • Razão abaixo de 38: indica baixo risco. Protocolos brasileiros de referência mostram que esse valor pode excluir o diagnóstico de pré-eclâmpsia por pelo menos uma semana, com valor preditivo negativo acima de 99% — ou seja, é muito improvável que a gestante desenvolva a doença nesse intervalo.
  • Razão entre 38 e 85 (antes de 34 semanas) ou entre 38 e 110 (após 34 semanas): representa uma zona intermediária, de incerteza diagnóstica. Não confirma nem descarta a pré-eclâmpsia isoladamente, e por isso costuma levar o médico a repetir o exame em poucos dias e a associá-lo à pressão arterial, à proteinúria e ao Doppler uterino.
  • Razão acima desses limites superiores (85 ou 110, conforme a idade gestacional): sugere alto risco de pré-eclâmpsia iminente ou já instalada, reforçando a necessidade de investigação e monitoramento mais próximos.

Em resumo: quanto maior o número, maior o desequilíbrio entre as duas proteínas — e maior a probabilidade de a placenta estar sob sofrimento. O valor de corte muda conforme a idade gestacional, porque a quantidade dessas proteínas na circulação varia naturalmente ao longo da gravidez.

sFlt-1 e PlGF Isoladamente

O sFlt-1 (tirosina quinase-1 solúvel semelhante a fms) é uma proteína antiangiogênica que, em excesso, bloqueia a ação de fatores essenciais para a saúde vascular da placenta. Já o PlGF (fator de crescimento placentário) atua no sentido oposto, promovendo a formação saudável de vasos sanguíneos.

Quando dosado isoladamente, um PlGF abaixo de 100 pg/mL já é considerado suficiente para definir o diagnóstico de pré-eclâmpsia. Isso reforça por que a dosagem individual dessas proteínas também tem valor clínico, mesmo sem o cálculo da razão entre elas.

Fatores Angiogênicos e Antiangiogênicos: o Equilíbrio que Protege a Gestação

Um endotélio placentário saudável depende do equilíbrio entre proteínas que estimulam a formação de vasos (como o PlGF e o VEGF) e proteínas que a inibem (como o sFlt-1). Quando esse equilíbrio se rompe, a probabilidade de desenvolvimento da doença aumenta consideravelmente.

Diretrizes internacionais, incluindo protocolos do Reino Unido, já incorporam a dosagem de fatores angiogênicos e antiangiogênicos, além da relação sFlt-1/PlGF, em suas recomendações oficiais. Isso demonstra a consolidação científica desses biomarcadores na prática obstétrica atual.

Exames de Imagem e Biofísicos no Rastreamento da Pré-Eclâmpsia

Além dos exames de sangue, a avaliação por imagem tem papel central na identificação precoce de alterações placentárias e fetais associadas à pré-eclâmpsia.

Doppler das Artérias Uterinas e Incisura Protodiastólica Bilateral

O Doppler das artérias uterinas costuma ser realizado no fim do primeiro trimestre, mas é reavaliado sempre que há suspeita de risco elevado no segundo trimestre. Esse exame avalia a resistência ao fluxo sanguíneo nas artérias que irrigam o útero e a placenta.

A incisura protodiastólica bilateral é um achado específico desse exame: trata-se de uma reentrância no traçado do fluxo sanguíneo, presente nas duas artérias uterinas, que indica resistência vascular aumentada. Sua persistência após 24 semanas está associada a maior risco de pré-eclâmpsia e de restrição de crescimento fetal.

PAM (Pressão Arterial Média)

A PAM é calculada a partir da pressão sistólica (alta) e diastólica (baixa) e oferece uma leitura mais estável da pressão arterial do que os valores isolados. Ela é frequentemente combinada aos biomarcadores angiogênicos e ao Doppler uterino em modelos preditivos de risco.

Esses modelos combinados, que reúnem PAM, Doppler e biomarcadores séricos, têm demonstrado maior acurácia do que qualquer exame isolado. É por isso que o obstetra raramente decide com base em um único resultado.

Restrição de Crescimento Fetal (RCF)

A restrição de crescimento fetal é uma consequência direta da disfunção placentária, que também origina a pré-eclâmpsia. Quando a placenta não nutre adequadamente o feto, o crescimento fica abaixo do esperado para a idade gestacional.

Por esse motivo, toda ultrassonografia obstétrica com dopplerfluxometria realizada no segundo trimestre avalia, em conjunto, o crescimento fetal e a função placentária. Um feto pequeno para a idade gestacional é um sinal de alerta que reforça a necessidade de investigação mais aprofundada.

Exames Laboratoriais de Rotina e Triagem no Segundo Trimestre

Paralelamente aos biomarcadores e exames de imagem, uma bateria de exames de sangue e urina compõe a triagem laboratorial de rotina, avaliando a função dos órgãos-alvo mais afetados pela doença.

Proteinúria de 24 Horas e Relação Proteína/Creatinina

A proteinúria de 24 horas continua sendo considerada padrão-ouro para o diagnóstico de proteinúria significativa. Segundo a FEBRASGO, perdas iguais ou superiores a 300 mg de proteína em 24 horas são indicativas de pré-eclâmpsia.

Como alternativa mais rápida, a relação proteína/creatinina urinária em amostra isolada tem ganhado espaço na prática clínica. Estudos mostram que uma relação proteína/creatinina de 0,3 apresenta sensibilidade de cerca de 87% para detectar proteinúria de 24 horas igual ou superior a 300 mg, sendo hoje o método preferido em situações de urgência obstétrica.

Clearance de Creatinina e Creatinina Sérica

A creatinina sérica reflete a função renal e tende a permanecer estável durante uma gestação saudável, já que a filtração glomerular normalmente aumenta na gravidez. Um aumento inesperado desse valor pode indicar comprometimento renal decorrente da pré-eclâmpsia.

O clearance de creatinina complementa essa avaliação, estimando com mais precisão a capacidade dos rins de filtrar o sangue. Juntos, esses exames ajudam a diferenciar uma disfunção renal transitória de uma lesão mais significativa.

Ácido Úrico no Sangue

O ácido úrico costuma se elevar precocemente na pré-eclâmpsia, muitas vezes antes mesmo da proteinúria se tornar evidente. Por isso, ele é frequentemente solicitado como marcador auxiliar de gravidade e de progressão da doença.

Embora não seja um critério diagnóstico isolado, o acompanhamento seriado do ácido úrico ajuda o obstetra a identificar tendências de piora clínica ao longo das semanas.

Enzimas Hepáticas (TGO/AST e TGP/ALT)

A elevação das transaminases hepáticas indica comprometimento do fígado, um dos órgãos-alvo mais sensíveis na pré-eclâmpsia grave. Esse achado é especialmente importante na investigação da síndrome HELLP, que discutiremos a seguir.

Um aumento significativo de TGO e TGP, associado a sintomas como dor abdominal no quadrante superior direito, deve ser sempre comunicado imediatamente à equipe médica.

Contagem de Plaquetas (Trombocitopenia)

A redução do número de plaquetas no sangue, condição conhecida como trombocitopenia, é um dos principais critérios laboratoriais utilizados para identificar formas graves da pré-eclâmpsia. Por esse motivo, o hemograma completo faz parte da investigação e do acompanhamento da gestante com suspeita ou diagnóstico da doença, sendo repetido periodicamente conforme a evolução do quadro clínico.

De acordo com os critérios adotados pelas principais diretrizes obstétricas, uma contagem de plaquetas inferior a 100.000/mm³ é considerada um marcador de gravidade. Esse achado pode indicar comprometimento sistêmico da doença e aumenta o risco de complicações maternas, como a síndrome HELLP e distúrbios da coagulação. Nesses casos, a gestante geralmente necessita de monitoramento hospitalar intensivo, avaliação obstétrica contínua e definição do momento mais seguro para o parto.

Desidrogenase Lática (DHL)

A DHL é uma enzima que se eleva em situações de destruição celular, incluindo a hemólise que ocorre na síndrome HELLP. Seu aumento, combinado à queda de plaquetas e à elevação de enzimas hepáticas, fecha o tripé diagnóstico dessa complicação grave.

Quando o Risco se Torna Grave: Síndrome HELLP e Lesão de Órgão-Alvo

A síndrome HELLP é a forma mais grave de pré-eclâmpsia, caracterizada por hemólise (destruição ou rompimento das hemácias), elevação de enzimas hepáticas e plaquetopenia — daí o nome, um acrônimo em inglês para esses três achados. Ela representa uma emergência obstétrica e exige internação imediata.

A presença de lesão de órgão-alvo — seja renal, hepática, neurológica ou hematológica — muda completamente a conduta médica, mesmo na ausência de proteinúria. Por isso, os exames de rotina do segundo trimestre não servem apenas para confirmar o diagnóstico, mas principalmente para antecipar complicações antes que se tornem graves.

Rastreamento Tardio de Pré-Eclâmpsia: Por Que Não Atrasar os Exames

O rastreamento tardio de pré-eclâmpsia, isto é, aquele iniciado apenas após a 20ª semana sem avaliação prévia, reduz a janela de tempo disponível para intervenções preventivas. Ainda assim, mesmo quando o rastreamento precoce não foi realizado, os exames do segundo trimestre continuam sendo fundamentais.

Manter a regularidade das consultas de pré-natal, repetir os exames conforme orientação médica e relatar sintomas como dor de cabeça persistente, inchaço súbito ou alterações visuais são atitudes que fazem diferença real no desfecho da gestação.

Considerações Finais

Os exames para pré-eclâmpsia no segundo trimestre formam uma rede complementar de vigilância: biomarcadores angiogênicos, Doppler uterino, função renal, enzimas hepáticas e plaquetas trabalham juntos para antecipar riscos antes que os sintomas apareçam. Nenhum exame isolado conta a história completa — é o conjunto de resultados, interpretado pelo obstetra, que orienta a conduta mais segura para mãe e bebê.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. Consulte sempre seu obstetra para interpretar seus exames e ajustar a conduta ao seu caso específico.

Perguntas Frequentes

Mulheres com hipertensão crônica, diabetes, doença renal, lúpus, gestação múltipla, obesidade, idade materna acima de 35 anos ou histórico de pré-eclâmpsia apresentam maior risco. Nesses casos, o acompanhamento pré-natal costuma ser mais rigoroso e pode incluir exames adicionais para rastreamento precoce.

Não. Um resultado alterado apenas aumenta a suspeita clínica e deve ser interpretado juntamente com a pressão arterial, sintomas, idade gestacional e demais exames laboratoriais e de imagem. O diagnóstico definitivo depende da avaliação médica.

A frequência varia conforme o risco da gestante e os resultados obtidos. Mulheres de baixo risco seguem o calendário habitual do pré-natal, enquanto pacientes com suspeita ou alto risco podem necessitar de avaliações semanais ou até mais frequentes, conforme orientação do obstetra.

Sim. Muitas gestantes apresentam pressão arterial normal durante boa parte da gravidez e desenvolvem hipertensão apenas após a 20ª semana. Por isso, o acompanhamento periódico é fundamental, mesmo quando todos os exames anteriores estavam normais.

Não. Os exames não previnem a doença, mas permitem identificar gestantes com maior risco e detectar alterações precocemente. Isso possibilita acompanhamento intensivo, tratamento adequado e redução das complicações maternas e fetais.

Sim. Quando a circulação placentária é comprometida, o bebê pode apresentar restrição de crescimento, diminuição do líquido amniótico, sofrimento fetal e maior risco de parto prematuro. O monitoramento adequado reduz significativamente essas complicações.

Sim. As diretrizes atuais reconhecem que algumas gestantes apresentam lesão de órgãos-alvo, como alterações renais, hepáticas, neurológicas ou hematológicas, mesmo sem proteinúria. Nesses casos, o diagnóstico pode ser estabelecido pela associação da hipertensão com esses sinais clínicos e laboratoriais.

O estresse isoladamente não causa pré-eclâmpsia. A doença está relacionada principalmente a alterações no desenvolvimento da placenta e na função dos vasos sanguíneos. Entretanto, controlar o estresse faz parte dos cuidados gerais durante a gestação e contribui para o bem-estar materno.

É recomendável procurar atendimento imediato diante de pressão arterial elevada, dor de cabeça intensa e persistente, alterações visuais, dor forte na parte superior do abdômen, falta de ar, redução dos movimentos fetais ou inchaço súbito e importante. Esses sintomas podem indicar agravamento da pré-eclâmpsia.

Os exames laboratoriais e de imagem de rotina geralmente possuem cobertura quando há indicação médica. Já alguns biomarcadores mais modernos, como a relação sFlt-1/PlGF, podem depender da operadora, do protocolo utilizado e da justificativa clínica apresentada pelo obstetra.

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