Perceber sangue na urina ou receber um resultado de exame que indique sua presença costuma gerar preocupação imediata, uma reação perfeitamente compreensível. Esse achado, conhecido tecnicamente como hematúria, pode ter diversas causas, que variam desde condições benignas e transitórias até doenças que requerem investigação especializada por um urologista ou nefrologista.
Neste guia, te explico, com base em diretrizes internacionais, o que a hematúria significa, suas principais causas e como ela é diagnosticada em laboratório na minha prática clínica.
O Que é Hematúria? Definição Técnica e Popular
Hematúria é o termo médico usado para descrever a presença de hemácias (glóbulos vermelhos) na urina. É o mesmo fenômeno que a população costuma chamar de “urina com sangue” ou “sangue na urina”.
Esse achado pode ser visível a olho nu, deixando a urina rosada, avermelhada ou com aspecto de “água de carne”, ou pode ser identificado apenas no exame laboratorial, sem qualquer alteração perceptível na cor.
Hematúria Microscópica vs. Macroscópica
A hematúria é classificada em dois grandes grupos, e essa distinção orienta toda a investigação clínica subsequente:
- Hematúria macroscópica: o sangue é visível na urina a olho nu. Geralmente motiva busca imediata por atendimento médico.
- Hematúria microscópica: as hemácias só são detectadas no exame de urina (EAS), sem alteração visual da cor. É um achado relativamente comum e nem sempre indica doença grave.
De forma geral, há consenso de que a hematúria macroscópica exige avaliação completa para descartar causas urológicas mais sérias, enquanto a hematúria microscópica costuma seguir uma investigação estratificada por risco, considerando idade, histórico de tabagismo e quantidade de hemácias por campo de alta potência.
Principais Causas do Sangue na Urina
Infecção Urinária Causa Sangue na Urina?
Sim. A infecção urinária (cistite, uretrite ou pielonefrite) é uma das causas mais frequentes de hematúria, especialmente quando acompanhada de ardência ao urinar, aumento da frequência urinária e dor pélvica. A inflamação da mucosa da bexiga ou da uretra, provocada pelas bactérias, pode romper pequenos vasos e liberar hemácias na urina.
Pedra nos Rins e Hematúria
Os cálculos renais (popularmente “pedra nos rins”) são outra causa comum, principalmente quando o quadro vem acompanhado de dor na coluna ou dor lombar em cólica, que pode irradiar para a virilha. O atrito do cálculo contra a mucosa do trato urinário durante sua movimentação provoca microlesões e sangramento.
Sangue na Urina Sem Dor: O Que Pode Ser
A hematúria indolor merece atenção redobrada. Embora possa ocorrer por causas benignas, como exercício físico intenso ou uso de certos medicamentos, ela também é o sinal de alerta clássico para tumores do trato urinário, como câncer de bexiga ou de rim, especialmente em pessoas acima de 35 anos, fumantes ou ex-fumantes.
Causas Glomerulares (Origem nos Rins)
Quando o sangramento se origina nos glomérulos renais (as unidades filtradoras do rim), fala-se em hematúria glomerular. Ela costuma estar associada a doenças como glomerulonefrites, nefropatia por IgA e outras condições inflamatórias renais, e frequentemente vem acompanhada de proteínas na urina (proteinúria).
Causas não Glomerulares
Já a hematúria não glomerular tem origem no trato urinário abaixo dos rins: bexiga, ureteres, uretra ou próstata. Inclui infecções, cálculos, traumas, uso de sondas, exercício físico extenuante e neoplasias do trato urinário.
Sangue na Urina por Perfil: Diferenças entre Homens, Mulheres, Idosos e Gestantes
Sangue na Urina no Homem
Em homens, especialmente acima dos 50 anos, causas prostáticas ganham relevância: hiperplasia prostática benigna (aumento da próstata) e, mais raramente, câncer de próstata podem cursar com hematúria. Infecções urinárias e cálculos renais também são frequentes.
Sangue na Urina na Mulher e Após a Relação Sexual
Nas mulheres, infecções urinárias são a causa mais comum de hematúria, dada a anatomia da uretra mais curta. Sangue na urina após a relação sexual costuma estar relacionado a pequenos traumas na uretra ou no colo vesical, cistite pós-coital ou, mais raramente, precisa ser diferenciado de sangramento vaginal/menstrual que se mistura à urina.
Hematúria na Gravidez
Durante a gestação, a hematúria pode surgir por infecção urinária (mais comum e mais frequentemente assintomática nesse período), por compressão mecânica dos ureteres pelo útero aumentado ou, em casos mais raros, sinalizar quadros hipertensivos como a pré-eclâmpsia. Por isso, toda gestante com sangue na urina deve ser avaliada pelo obstetra.
Sangue na Urina em Idosos
Na população idosa, a investigação deve ser mais criteriosa, pois a prevalência de neoplasias do trato urinário aumenta com a idade. Fatores como tabagismo prévio, exposição ocupacional a certas substâncias químicas e histórico de radioterapia pélvica elevam ainda mais esse risco.
Diagnóstico Laboratorial da Hematúria
Exame de Urina EAS e Hematúria
O Exame de Elementos Anormais e Sedimentoscopia (EAS), também chamado de urina tipo I, é o primeiro exame solicitado. Ele detecta hemácias tanto pela fita reagente quanto pela análise microscópica do sedimento urinário, que confirma e quantifica o achado.
Um resultado positivo na fita reagente sempre deve ser confirmado por microscopia, já que a fita pode gerar falsos positivos em situações como hemoglobinúria ou mioglobinúria.
Dismorfismo Eritrocitário: O Que Significa
O dismorfismo eritrocitário refere-se à análise da forma das hemácias encontradas na urina. Hemácias com formato alterado, especialmente os chamados acantócitos, sugerem que o sangramento tem origem glomerular, ou seja, dentro dos rins.
Já hemácias com formato preservado (isomórficas) apontam para uma origem não glomerular, como bexiga, ureteres ou uretra. A presença de acantócitos acima de determinado percentual tem alta especificidade para doença glomerular, embora a sensibilidade desse achado varie entre os estudos.
Cilindros Hemáticos na Urina
Os cilindros hemáticos são estruturas formadas por hemácias aglutinadas dentro dos túbulos renais. Sua presença é um marcador de alta especificidade para hematúria de origem glomerular, embora seja um achado pouco sensível, ou seja, sua ausência não descarta doença renal.
Hemoglobina Positiva no Exame de Urina
Quando a fita reagente detecta hemoglobina (presente ++), mas a microscopia não confirma a presença de hemácias íntegras, é preciso investigar hemólise (destruição de hemácias na circulação) ou mioglobinúria, condição associada a lesão muscular intensa, e não necessariamente um sangramento do trato urinário.
Quando o Sangue na Urina é Preocupante? Sinais de Alerta
Alguns sinais indicam que a hematúria precisa de avaliação médica com prioridade:
- Sangue visível na urina, mesmo que em episódio único.
- Presença de coágulos.
- Febre, calafrios ou dor lombar intensa associados.
- Perda de peso não intencional, fadiga ou dor óssea associadas.
- Histórico de tabagismo, idade acima de 35 anos ou exposição ocupacional a produtos químicos.
- Hematúria recorrente ou persistente em exames de rotina.
Qual Médico Procurar para Sangue na Urina?
O ponto de partida costuma ser o clínico geral ou médico de família, que solicitará o exame de urina e exames complementares iniciais. A partir dos resultados, o encaminhamento típico é para o urologista, quando a suspeita recai sobre bexiga, próstata ou trato urinário inferior, ou para o nefrologista, quando há indícios de origem glomerular, como proteinúria associada ou alteração da função renal.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Diante de qualquer episódio de sangue na urina, procure avaliação profissional.
Perguntas Frequentes
Sim. Em algumas situações, como após exercício físico intenso, pequenos traumas ou desidratação, a hematúria pode desaparecer espontaneamente. Entretanto, qualquer episódio de sangue na urina deve ser comunicado ao médico para que a necessidade de investigação seja avaliada.
Além do exame de urina (EAS), o médico pode solicitar urocultura, creatinina, ureia, relação proteína/creatinina urinária, ultrassonografia, tomografia computadorizada, cistoscopia e outros exames conforme a idade, fatores de risco e suspeita clínica.
Sim. Exercícios de alta intensidade, como corrida de longa distância e atividades extenuantes, podem provocar hematúria transitória. Caso o sangramento persista por mais de 48 a 72 horas ou ocorra repetidamente, é necessária avaliação médica.
Medicamentos anticoagulantes, antiagregantes plaquetários e alguns quimioterápicos podem favorecer episódios de hematúria. Contudo, esses medicamentos geralmente apenas evidenciam uma doença já existente e não devem ser considerados a única causa sem investigação.
Não. A maioria dos casos está relacionada a infecções urinárias, cálculos renais ou outras condições benignas. Entretanto, principalmente em pessoas acima de 35 anos, fumantes ou ex-fumantes, a possibilidade de tumor do trato urinário deve ser descartada.
Sim. Em crianças, as causas incluem infecções urinárias, doenças glomerulares, alterações congênitas, cálculos e traumas. Toda hematúria na infância deve ser avaliada pelo pediatra.
Sim. Beterraba, amoras e alguns corantes alimentares podem deixar a urina avermelhada sem que exista sangue. Certos medicamentos também podem provocar alteração semelhante, sendo importante confirmar a presença de hemácias por meio do exame de urina.
Sim. Muitas pessoas apresentam hematúria assintomática, principalmente quando ela é microscópica. Mesmo sem dor ou outros sintomas, o achado merece investigação conforme os fatores de risco do paciente.
O tempo varia conforme a causa. Em infecções urinárias, a melhora costuma ocorrer poucos dias após o início do tratamento. Já em cálculos, doenças renais ou tumores, a resolução depende do tratamento específico.
O médico pode solicitar um novo exame após o tratamento da causa identificada ou quando houver suspeita de falso positivo. A repetição também é indicada em casos de hematúria microscópica persistente para confirmar o achado.
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Mariana Soares – biomédica patologista clínica, com uma carreira sólida e reconhecida no campo das análises laboratoriais e diagnóstico clínico. Formada em Biomedicina, é inscrita no Conselho Regional de Biomedicina (CRBM 60562/ES), atua com compromisso e ética profissional, buscando constantemente a excelência na qualidade dos serviços de saúde.

