Toxoplasmose na Gravidez: IgG, IgM, Avidez e Como Interpretar

Barriga de gestante durante a gravidez em conteúdo sobre exame de toxoplasmose, sorologia usada no pré-natal para avaliar infecção por Toxoplasma gondii.

A toxoplasmose na gravidez merece atenção especial, porque uma infecção adquirida durante a gestação pode ser transmitida ao feto por meio da placenta. O problema é que a maioria das pessoas infectadas pelo Toxoplasma gondii pode apresentar poucos sintomas ou mesmo permanecer assintomática, fazendo com que a sorologia IgG e IgM tenha papel importante durante o pré-natal.

Entretanto, existe um ponto que considero fundamental logo no início:

IgM positivo para toxoplasmose não significa automaticamente infecção recente na gravidez.

Essa é provavelmente uma das interpretações laboratoriais que mais merece cuidado neste exame.

O IgM pode permanecer detectável por períodos prolongados, pode ocorrer resultado falso-positivo e, dependendo da combinação encontrada, podem ser necessários teste de avidez do IgG, nova sorologia e comparação entre amostras antes de concluir quando a infecção ocorreu. A diretriz brasileira e a Nota Técnica estadual de 2026 reconhecem explicitamente essas situações.

Do ponto de vista técnico-laboratorial, portanto, eu não interpreto IgG e IgM como duas respostas independentes. O que realmente importa é a combinação entre os marcadores, a idade gestacional, resultados anteriores e, em algumas situações, a avidez do IgG.

O que é toxoplasmose?

A toxoplasmose é uma infecção causada pelo protozoário Toxoplasma gondii.

Os felinos são os hospedeiros definitivos do parasito, mas isso não significa que simplesmente encostar em um gato cause toxoplasmose.

As principais formas de aquisição estão relacionadas principalmente à ingestão de água ou alimentos contaminados, além da possibilidade de exposição a formas do parasito presentes no ambiente. Durante a gravidez, também pode ocorrer transmissão da mãe infectada para o feto por meio da placenta.

Por que a toxoplasmose preocupa durante a gravidez?

Quando uma infecção é adquirida durante a gestação, existe possibilidade de transmissão vertical do T. gondii.

Uma característica importante é que o risco de transmissão tende a aumentar conforme a gestação avança, enquanto as consequências fetais podem ser mais graves quando a infecção ocorre mais precocemente.

Isso cria uma situação que às vezes parece contraditória:

Infecção mais cedo → menor probabilidade de transmissão, porém potencialmente maior gravidade quando ocorre.

enquanto:

Infecção mais tarde → maior probabilidade de transmissão, porém tendência a manifestações menos graves.

Esse princípio ajuda a entender por que descobrir aproximadamente quando a infecção ocorreu pode ser tão importante.

A gestante com toxoplasmose sempre apresenta sintomas?

Não.

Muitas gestantes podem permanecer assintomáticas.

Quando existem manifestações, elas podem ser inespecíficas e semelhantes às de outras infecções, como febre, fadiga, dores musculares e aumento de linfonodos.

Por isso, não considero adequado usar a ausência de sintomas como argumento para excluir infecção.

É justamente aí que a história sorológica do pré-natal ganha importância.

Quais exames detectam toxoplasmose na gravidez?

A avaliação inicial é feita principalmente pela pesquisa de anticorpos:

IgG anti-Toxoplasma gondii
E
IgM anti-Toxoplasma gondii.

Dependendo dos resultados, pode ser acrescentado o teste de avidez do IgG.

Em situações específicas de investigação da transmissão fetal, também podem ser utilizados métodos de detecção direta, como PCR, dentro de uma avaliação especializada. A Nota Técnica SESA nº 8/2026 descreve sorologia IgG/IgM, avidez de IgG e PCR entre os métodos empregados na investigação.

Como é feita a coleta do exame de toxoplasmose?

A sorologia para toxoplasmose é realizada normalmente por meio de uma amostra de sangue venoso.

A coleta é semelhante à de diversos outros exames laboratoriais: é realizada uma punção venosa no braço e o sangue é colocado em tubo adequado para obtenção da amostra utilizada pelo método laboratorial.

No laboratório, a amostra é processada e analisada para identificar anticorpos específicos contra o Toxoplasma gondii, principalmente IgG e IgM. O Ministério da Saúde destaca os exames de sangue e a identificação de anticorpos específicos como base do diagnóstico laboratorial da toxoplasmose.

Precisa de jejum?

Em geral, a sorologia para toxoplasmose isoladamente não exige jejum.

Entretanto, a gestante costuma realizar vários exames na mesma coleta. Por isso, o preparo deve considerar todos os testes solicitados, e não somente a toxoplasmose.

Do ponto de vista pré-analítico, também considero importante verificar resultados anteriores antes da coleta. Saber se a paciente era previamente IgG negativa ou positiva pode modificar completamente a interpretação de um resultado atual.

Como interpretar IgG e IgM para toxoplasmose?

Aqui começa a parte mais importante.

Eu utilizaria esta tabela como referência didática:

ResultadoInterpretação inicial
IgG−/IgM−Não há evidência sorológica de infecção anterior; a gestante é geralmente considerada suscetível.
IgG+/IgM−Geralmente compatível com infecção passada.
IgG+/IgM+Pode representar infecção recente, persistência de IgM ou outra situação que exige investigação complementar.
IgG− /IgM+Pode representar fase muito inicial da infecção ou IgM falso-positivo; precisa de confirmação.
 

A tabela é apenas um ponto de partida.

Idade gestacional, sorologias anteriores, avidez do IgG e evolução entre amostras podem modificar a interpretação.

Toxoplasmose IgG negativo e IgM negativo na gravidez: o que significa?

Essa combinação geralmente significa que não foram detectados anticorpos IgG nem IgM.

Na prática, a gestante é considerada suscetível, ou seja, não existe evidência sorológica de infecção prévia e ela ainda pode adquirir toxoplasmose durante a gravidez.

Nesse cenário, as medidas de prevenção ganham importância e a sorologia pode ser repetida durante o pré-natal, conforme o protocolo utilizado.

A Nota Técnica SESA nº 8/2026, baseada em referências nacionais, orienta que gestantes suscetíveis sejam acompanhadas com sorologias repetidas durante a gravidez e no parto.

É exatamente por isso que a toxoplasmose aparece tanto nos Exames do Primeiro Trimestre quanto em etapas posteriores do pré-natal.

Toxoplasmose IgG positivo e IgM negativo: o que significa?

Na maioria das situações em uma pessoa imunocompetente, essa combinação sugere contato anterior com o parasito, sem evidência sorológica típica de infecção aguda atual.

Em termos simples:

IgG positivo + IgM negativo → geralmente infecção antiga.

Porém, eu evitaria transformar essa fórmula em uma regra absoluta sem observar exames anteriores e o contexto clínico.

Na interpretação laboratorial, a história do resultado é importante.

IgG e IgM positivos na gravidez significam infecção recente?

Não necessariamente.

Essa é a resposta que precisa aparecer com bastante destaque no aqui.

Quando encontramos:

IgG positivo + IgM positivo

Existem diferentes possibilidades.

Pode existir uma infecção recente, mas também pode ocorrer persistência de IgM após uma infecção antiga.

Além disso, testes de IgM podem apresentar resultados falso-positivos.

Por isso, essa combinação pode exigir investigação complementar com avidez de IgG, comparação com resultados anteriores e/ou nova amostra, conforme o caso. O protocolo do Ministério da Saúde destaca que o IgM pode persistir e que a avidez deve ser usada dentro da janela e contexto adequados.

Do ponto de vista laboratorial, considero inadequado comunicar para uma gestante:

“Seu IgM está positivo, então você pegou toxoplasmose agora.”

O resultado isolado não permite essa conclusão.

O que significa IgG negativo e IgM positivo?

Essa combinação merece atenção.

Existem principalmente duas possibilidades:

Infecção muito recente, ainda antes da produção detectável de IgG;

Ou

IgM falso-positivo.

Uma estratégia utilizada é repetir a sorologia após algumas semanas para verificar se ocorre soroconversão do IgG.

A Nota Técnica SESA nº 8/2026 considera falso-positivo de IgM quando duas amostras permanecem IgG negativas, obtidas com intervalo de duas a três semanas, apesar do IgM reagente. Já o surgimento de IgG durante o acompanhamento pode sustentar infecção adquirida recentemente.

O que é soroconversão na toxoplasmose?

Soroconversão significa uma mudança documentada de uma sorologia previamente negativa para positiva.

Por exemplo:

Primeira amostra: IgG negativo.

Segunda amostra: IgG positivo.

Quando essa mudança ocorre durante a gestação, existe uma evidência muito mais forte de que a infecção foi adquirida nesse período.

Na minha leitura técnico-laboratorial, um resultado anterior documentado possui enorme valor.

Muitas vezes, saber que a gestante tinha IgG negativo algumas semanas antes é mais informativo do que tentar estimar toda a cronologia apenas a partir de uma única amostra atual.

A definição de caso confirmada utilizada pela Nota Técnica SESA 2026 inclui justamente a soroconversão de anticorpos durante o período gestacional.

O que é avidez do IgG para toxoplasmose?

Depois que o organismo começa a produzir IgG, esses anticorpos passam por um processo de maturação.

Inicialmente, sua ligação ao antígeno tende a ser menos forte.

Com o tempo, a capacidade de ligação aumenta.

O teste de avidez do IgG procura explorar esse fenômeno para ajudar a estimar se a resposta imunológica é mais recente ou mais antiga.

Em termos simplificados:

Baixa avidez → pode ser compatível com infecção mais recente.

Alta avidez → sugere uma resposta imunológica mais antiga.

Mas existe um detalhe decisivo:

baixa avidez não confirma sozinha infecção recente.

Alta avidez de IgG significa que a infecção ocorreu antes da gravidez?

Quando o teste é feito precocemente na gestação, uma alta avidez pode ser bastante útil para excluir uma infecção adquirida recentemente.

O Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde destaca que, quando a avidez é realizada até aproximadamente 16 semanas, alta avidez permite afastar infecção aguda adquirida durante a gestação em curso. A Nota Técnica SESA de 2026 também utiliza alta avidez colhida até 16 semanas como critério para descarte da suspeita de infecção adquirida na gravidez.

Essa janela temporal é fundamental.

Não basta apenas ler:

“Avidez alta.”

É preciso saber com quantas semanas de gestação o exame foi realizado.

Baixa avidez significa que a infecção aconteceu recentemente?

Não necessariamente.

Esse é outro ponto laboratorial em que frequentemente encontro uma interpretação excessivamente simplificada.

Baixa avidez pode ser observada em uma infecção recente, mas pode permanecer baixa por períodos prolongados em algumas pessoas.

O Ministério da Saúde alerta que a baixa avidez pode persistir por muitos meses e, em alguns casos, até aproximadamente um ano após uma infecção aguda. Por isso, seu valor preditivo positivo para datar uma infecção recente é limitado.

Portanto:

Alta avidez precoce é muito útil para afastar infecção recente. Baixa avidez é menos específica para provar que a infecção acabou de acontecer.

Do ponto de vista biomédico, essa assimetria é uma das informações mais importantes na interpretação do exame.

A avidez funciona depois de 16 semanas?

Sua capacidade de determinar quando a infecção ocorreu diminui.

O Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde ressalta que, após aproximadamente 16 semanas, um resultado de avidez — seja baixo, alto ou intermediário — não possui autonomia para estabelecer sozinho a época da infecção.

Por isso, eu evitaria interpretar uma avidez realizada tardiamente como um “relógio” da infecção.

Outros dados passam a ter ainda mais importância:

Resultados anteriores + evolução sorológica + idade gestacional + contexto clínico.

O valor do IgG mostra quando aconteceu a infecção?

Não de forma simples.

Uma concentração maior de IgG não deve ser interpretada isoladamente como:

“quanto maior o IgG, mais recente ou mais grave é a toxoplasmose.”

Os valores dependem do método utilizado e precisam ser analisados em conjunto com os outros marcadores.

Quando existe suspeita de infecção recente, a evolução entre amostras pode ser mais útil do que um número isolado.

IgM pode permanecer positivo por muito tempo?

Sim.

O IgM não deve ser encarado como um marcador perfeito de “infecção desta semana”.

Ele pode permanecer reagente por período prolongado.

Por isso, a simples presença de IgM não define com precisão quando o contato com o parasito ocorreu.

Esse é justamente o motivo para integrar:

IgM +, IgG +, avidez +, resultados anteriores +, idade gestacional.

O gato transmite toxoplasmose simplesmente pelo contato?

Não.

Essa é uma informação muito importante para evitar abandono desnecessário de animais.

O Ministério da Saúde destaca que o contato com gatos e outros felinos, por si só, não causa toxoplasmose. O risco está associado ao contato com fezes contaminadas e, principalmente, a fontes ambientais, água e alimentos contaminados.

Portanto, descobrir que uma gestante é suscetível não significa automaticamente que ela precise se desfazer de seu gato.

A prevenção deve ser baseada nas verdadeiras vias de exposição.

Como prevenir toxoplasmose durante a gravidez?

As principais medidas envolvem higiene adequada das mãos e dos alimentos, consumo de água segura, evitar carnes cruas ou malcozidas, reduzir o contato desprotegido com solo potencialmente contaminado e evitar manipulação direta de fezes de gatos sem cuidados de higiene.

Frutas e verduras precisam ser higienizadas adequadamente antes do consumo.

O Ministério da Saúde destaca a educação em saúde e higiene pessoal e dos alimentos como principais estratégias de prevenção.

Se eu já tinha IgG positivo antes da gravidez, posso pegar toxoplasmose novamente?

Na maioria das pessoas imunocompetentes, uma infecção antiga estabelece uma resposta imunológica duradoura.

Entretanto, existem situações especiais, principalmente relacionadas a alterações importantes da imunidade, e também há discussão sobre reinfecção por cepas diferentes em determinadas circunstâncias.

Por isso, eu evitaria usar uma linguagem absoluta como:

“IgG positivo significa risco zero para sempre.”

O contexto individual continua sendo importante.

Se a mãe tem toxoplasmose, o bebê necessariamente terá?

Não.

Infecção materna e infecção fetal são acontecimentos relacionados, porém distintos.

Uma gestante pode adquirir toxoplasmose sem que ocorra transmissão fetal.

Além disso, a probabilidade de transmissão varia conforme o momento da gravidez. O Ministério da Saúde descreve aumento progressivo da transmissão vertical com a idade gestacional, enquanto a gravidade fetal tende a ser maior quando a infecção ocorre mais cedo.

Portanto:

Toxoplasmose materna ≠ toxoplasmose congênita confirmada.

Como saber se ocorreu transmissão para o bebê?

Quando existe infecção materna recente ou suspeita relevante, o acompanhamento é especializado.

Dependendo da idade gestacional, evolução do caso e avaliação obstétrica, podem ser considerados ultrassonografia fetal e testes específicos, incluindo pesquisa molecular de T. gondii em situações selecionadas.

A detecção de DNA do T. gondii por PCR em líquido amniótico está entre os critérios utilizados na investigação de infecção fetal.

Isso não significa que toda gestante com IgM positivo precise automaticamente realizar um procedimento invasivo.

Primeiro é necessário confirmar se realmente existe evidência de infecção adquirida durante a gravidez.

Um ultrassom normal exclui toxoplasmose congênita?

Não.

A ultrassonografia pode identificar determinadas alterações quando presentes, porém ausência de alterações ultrassonográficas não exclui por completo infecção fetal.

Isso ocorre porque alguns bebês com toxoplasmose congênita podem não apresentar manifestações evidentes durante a gestação ou mesmo ao nascimento. O Ministério da Saúde destaca que muitos recém-nascidos infectados podem estar inicialmente sem sinais clínicos claros.

Portanto, resultado laboratorial e avaliação fetal precisam ser integrados.

Existe tratamento para toxoplasmose na gravidez?

Sim.

Quando existe suspeita ou confirmação de toxoplasmose adquirida durante a gestação, existem estratégias terapêuticas específicas definidas conforme idade gestacional, situação materna e avaliação da possibilidade de infecção fetal.

O Ministério da Saúde possui diretriz nacional para diagnóstico e tratamento da toxoplasmose gestacional e congênita, e o acompanhamento está disponível no SUS.

Toxoplasmose precisa ser repetida durante a gravidez?

Para uma gestante considerada suscetível, sim, podem ser necessárias novas sorologias.

A frequência exata depende do protocolo.

A Nota Técnica SESA nº 8/2026 orienta, baseada no Guia de Vigilância em Saúde, que gestantes suscetíveis realizem no mínimo três sorologias durante a gestação, além de nova avaliação no parto.

Isso explica por que encontramos a toxoplasmose em diferentes momentos dos nossos guias de Exames do Primeiro, Segundo e Terceiro Trimestres da Gravidez.

Uma gestante que já apresenta evidência clara de infecção passada não necessariamente seguirá o mesmo cronograma de uma paciente suscetível.

Como eu interpreto a sorologia de toxoplasmose na prática laboratorial?

Eu gosto de organizar essa interpretação em uma sequência lógica.

Primeiro, verifico IgG e IgM.

Depois, pergunto se existe resultado anterior da gravidez ou anterior à concepção.

Em seguida, considero a idade gestacional na data da coleta.

Se IgG e IgM estão positivos e a gestação ainda está no início, avalio a utilidade da avidez do IgG.

Se existe suspeita de infecção recente, a evolução em uma segunda amostra pode fornecer informação decisiva.

E, finalmente, separo duas perguntas que não devem ser confundidas:

A mãe adquiriu toxoplasmose durante a gravidez?

E

Houve transmissão para o feto?

São etapas diagnósticas diferentes.

Esse raciocínio evita transformar um único IgM reagente em uma conclusão que o exame isoladamente não consegue fornecer.

Resumo da interpretação

ResultadoInterpretação e próximo passo
IgG− / IgM−Gestante suscetível. Reforçar medidas de prevenção e manter acompanhamento sorológico conforme o pré-natal.
IgG+ / IgM−Geralmente compatível com infecção passada. Avaliar histórico e resultados anteriores.
IgG+ / IgM+Infecção recente é uma possibilidade, mas não é a única. Avaliar avidez do IgG, histórico e, quando indicado, nova amostra.
IgG− / IgM+Pode representar infecção muito inicial ou resultado falso-positivo. Repetir a sorologia para verificar possível soroconversão.
Alta avidez no início da gestação.Favorece infecção anterior à gestação. Interpretar considerando a idade gestacional em que o teste foi realizado.
Baixa avidez.Pode ocorrer em infecção recente, mas não confirma sozinha quando a infecção aconteceu. Integrar IgG, IgM, histórico e evolução sorológica.
 

Onde esse exame entra no pré-natal?

A toxoplasmose deve ser pensada como um exame longitudinal, principalmente nas gestantes suscetíveis.

A sequência é:

Primeiro trimestre

Sorologia inicial IgG/IgM

→ Definição de infecção passada ou suscetibilidade.

→ Repetição quando necessária.

Segundo trimestre

→ Nova avaliação da gestante suscetível conforme protocolo.

Terceiro trimestre

→ Continuidade do acompanhamento quando indicado.

→ Avaliação materna e neonatal conforme o histórico.

Conclusão

A toxoplasmose na gravidez é um excelente exemplo de por que um exame laboratorial não deve ser interpretado apenas olhando se o resultado apareceu como “positivo” ou “negativo”.

IgG e IgM contam partes diferentes da história imunológica.

E, principalmente:

IgM positivo não confirma sozinho uma infecção recente.

Quando IgG e IgM estão reagentes, é necessário considerar resultados anteriores, idade gestacional e, quando apropriado, o teste de avidez do IgG.

Da mesma forma:

baixa avidez não prova sozinha infecção recente.

Já uma alta avidez obtida no início da gestação, dentro da janela apropriada, possui grande utilidade para afastar uma infecção adquirida durante a gravidez.

Na minha interpretação técnico-laboratorial, considero que uma das informações mais valiosas nesse exame é a existência de uma sorologia anterior.

Saber que uma gestante era IgG negativa e posteriormente apresentou soroconversão fornece uma informação temporal muito mais sólida do que tentar reconstruir toda a história a partir de um único IgM reagente.

Também é importante separar:

Infecção materna

De

transmissão fetal.

Uma não confirma automaticamente a outra.

Por isso, diante de uma sorologia suspeita, o objetivo não é gerar preocupação a partir de um marcador isolado, mas construir a interpretação correta usando histórico, tempo de gestação, evolução dos anticorpos e exames complementares quando necessários.

Essa é a mensagem que eu deixaria como diferencial técnico deste artigo:

Na toxoplasmose gestacional, interpretar o tempo da infecção é tão importante quanto detectar os anticorpos.

Dúvidas frequentes sobre toxoplasmose na gravidez

A coleta é feita por punção venosa no braço da gestante. O sangue é colocado em tubo apropriado e encaminhado ao laboratório, onde são pesquisados principalmente os anticorpos IgG e IgM contra o Toxoplasma gondii.

Dependendo dos resultados, também pode ser solicitado o teste de avidez do IgG para auxiliar na estimativa do momento em que ocorreu a infecção.

Em geral, não. A sorologia para toxoplasmose isoladamente não costuma exigir jejum.

Entretanto, se outros exames forem realizados na mesma coleta, a gestante deve seguir o preparo solicitado para o conjunto de testes.

Essa combinação é geralmente compatível com infecção adquirida no passado, sem o padrão sorológico típico de uma infecção aguda atual.

A interpretação deve considerar a idade gestacional, resultados anteriores e o método utilizado pelo laboratório.

Essa combinação indica que não há evidência sorológica de infecção anterior.

A gestante é geralmente considerada suscetível à toxoplasmose e pode precisar repetir a sorologia durante o pré-natal, além de reforçar as medidas de prevenção.

Não necessariamente. O IgM pode permanecer detectável por período prolongado após uma infecção e também podem ocorrer resultados falso-positivos.

Por isso, um IgM reagente não deve ser interpretado isoladamente como confirmação de toxoplasmose adquirida recentemente.

A avaliação pode incluir IgG, resultados anteriores, avidez do IgG e uma nova amostra, conforme o caso.

Essa combinação pode ocorrer em uma infecção recente, mas não confirma sozinha quando a infecção aconteceu.

O IgM pode persistir após uma infecção antiga. Por isso, são importantes a idade gestacional, sorologias anteriores, evolução dos anticorpos e, quando indicado, o teste de avidez.

Essa combinação pode representar uma infecção muito recente, antes do aparecimento detectável do IgG, ou um resultado falso-positivo de IgM.

Frequentemente é necessária uma nova amostra para verificar se ocorre soroconversão do IgG.

A avidez do IgG avalia a força de ligação dos anticorpos IgG ao antígeno do Toxoplasma gondii.

Em determinadas situações, principalmente no início da gravidez, esse teste ajuda a estimar se a resposta imunológica é mais antiga ou potencialmente mais recente.

Entretanto, o resultado deve ser interpretado junto da idade gestacional e dos demais marcadores sorológicos.

Quando encontrada no início da gravidez, uma alta avidez favorece fortemente uma infecção ocorrida anteriormente.

A utilidade é maior quando o teste é realizado precocemente, porque a idade gestacional interfere na capacidade de estimar quando ocorreu a infecção.

Não. Uma baixa avidez pode ser encontrada em infecção recente, mas pode permanecer baixa por períodos prolongados.

Por isso, baixa avidez isoladamente não determina quando a infecção ocorreu.

A interpretação deve incluir IgG, IgM, idade gestacional e resultados anteriores.

Para gestantes suscetíveis, a sorologia pode precisar ser repetida durante o pré-natal.

O objetivo é identificar uma possível soroconversão ao longo da gravidez. A frequência depende do protocolo adotado e da avaliação obstétrica.

Veja também nosso guia de Exames do Segundo Trimestre da Gravidez .

O simples contato com um gato não transmite toxoplasmose automaticamente.

O risco está relacionado principalmente ao contato com material contaminado e à ingestão de água ou alimentos contendo formas infectantes do parasito.

Portanto, não há indicação de abandonar o animal apenas porque a gestante é suscetível. O mais importante é seguir medidas adequadas de higiene e prevenção.

Não necessariamente. A infecção materna não significa automaticamente que houve transmissão para o feto.

A probabilidade de transmissão varia conforme o momento da gestação e outros fatores.

Quando há suspeita ou confirmação de infecção recente, podem ser necessários acompanhamento especializado e exames adicionais para avaliar o risco fetal.

Não. A ultrassonografia pode identificar algumas alterações fetais, mas um resultado normal não exclui totalmente uma infecção fetal.

Por isso, quando existe suspeita relevante de toxoplasmose adquirida durante a gravidez, os resultados laboratoriais e o acompanhamento fetal precisam ser avaliados em conjunto.

A toxoplasmose materna corresponde à infecção da gestante.

Já a toxoplasmose congênita ocorre quando existe transmissão do parasito para o feto.

Portanto, diagnosticar uma infecção materna não confirma automaticamente infecção fetal.

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