Exames do Primeiro Trimestre da Gravidez: Quais Fazer e Quando

Gestante realizando coleta de sangue durante exames laboratoriais do pré-natal no primeiro trimestre da gravidez.

O primeiro trimestre da gravidez, que vai até o final da 13ª semana, é uma fase decisiva para iniciar o pré-natal, confirmar a idade gestacional e avaliar condições que podem interferir na saúde da gestante e no desenvolvimento do bebê.

É também nesse período que são solicitados vários dos principais exames de sangue da gravidez, testes para infecções, avaliação do grupo sanguíneo e exames de urina. Dependendo da idade gestacional e da avaliação obstétrica, entram ainda as primeiras ultrassonografias e os testes de rastreamento de alterações cromossômicas.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda que o pré-natal seja iniciado assim que a gravidez for descoberta ou suspeitada, preferencialmente até a 12ª semana de gestação.

Mas quais exames fazer no início da gravidez? Em que semana deve ser realizado o primeiro ultrassom? Beta-hCG precisa ser repetido? Toda gestante precisa fazer TSH, Coombs indireto ou NIPT?

A seguir, vou detalhar como funciona a rotina de exames do pré-natal no primeiro trimestre, para que serve cada teste e em que momento ele costuma ser solicitado.

Importante: a lista de exames pode variar conforme histórico clínico, idade, sintomas, gestações anteriores, medicamentos utilizados, protocolos locais e classificação da gestação como baixo ou alto risco. A solicitação e a interpretação devem ser individualizadas pelo profissional responsável pelo pré-natal.

Tabela de exames do pré-natal por semana

Uma forma prática de compreender os exames do primeiro trimestre é organizá-los pela idade gestacional.

Período aproximadoAvaliações que podem ser realizadas
Descoberta da gravidezBeta hCG quando necessário e início do pré-natal
Primeira consulta / início do pré-natalHemograma, tipagem sanguínea e Rh, glicemia, HIV, sífilis, hepatites, toxoplasmose, urocultura e outros exames conforme avaliação
Aproximadamente 6ª–10ª semanaUltrassonografia inicial quando indicada, frequentemente por via transvaginal
A partir de 10 semanasNIPT/cfDNA pode ser considerado como estratégia de rastreamento cromossômico
11ª–14ª semanaUltrassonografia do primeiro trimestre e avaliação da translucência nucal quando indicada

Esses períodos são referências gerais. A idade gestacional correta, as características individuais da gravidez e o protocolo utilizado pelo serviço podem modificar o cronograma.

Quais exames de sangue a grávida faz no primeiro trimestre?

Os exames laboratoriais realizados no início do pré-natal ajudam a identificar anemia, alterações metabólicas, incompatibilidade sanguínea e algumas infecções capazes de afetar a gestação.

Na rotina brasileira de pré-natal de baixo risco, o Ministério da Saúde inclui na primeira consulta exames como hemograma completo, tipagem sanguínea e fator Rh, glicemia, testagem para sífilis, HIV, toxoplasmose e hepatites, além de urocultura com antibiograma.

Hemograma completo

O hemograma completo na gestante avalia principalmente hemoglobina, hematócrito, índices hematimétricos, leucócitos e plaquetas.

Um de seus principais objetivos no pré-natal é identificar anemia. Entretanto, alterações no hemograma durante a gravidez precisam ser interpretadas considerando as mudanças fisiológicas próprias da gestação.

A concentração de hemoglobina, por exemplo, pode diminuir em razão do aumento do volume plasmático. Por isso, o resultado não deve ser interpretado simplesmente comparando a gestante com valores utilizados para mulheres não grávidas.

Tipagem sanguínea e fator Rh

A determinação do sistema ABO e do fator Rh faz parte da avaliação inicial da gestante.

A identificação de uma gestante Rh negativo é particularmente importante porque existe possibilidade de sensibilização contra antígenos presentes nas hemácias fetais.

Essa situação está relacionada ao risco de doença hemolítica fetal e neonatal em determinadas circunstâncias.

Coombs indireto

O teste de Coombs indireto, também denominado pesquisa de anticorpos irregulares, procura anticorpos circulantes capazes de reagir contra antígenos das hemácias.

No protocolo de pré-natal de baixo risco do Ministério da Saúde, o exame é indicado na avaliação de gestantes Rh negativo, com acompanhamento posterior conforme a situação materna e paterna.

Portanto, não se deve interpretar o Coombs indireto simplesmente como um teste de “compatibilidade do sangue do casal”. Sua finalidade é investigar anticorpos maternos clinicamente relevantes.

Glicemia de jejum na gravidez

A glicemia de jejum pode fazer parte da investigação metabólica já no início do pré-natal.

É importante diferenciar essa avaliação inicial do rastreamento convencional para diabetes mellitus gestacional realizado mais adiante na gravidez.

A American Diabetes Association (ADA), por exemplo, recomenda investigação de diabetes não diagnosticado previamente no início da gestação, especialmente na presença de fatores de risco, e mantém o rastreamento para diabetes gestacional entre 24 e 28 semanas para quem não teve diabetes ou alteração metabólica de alto risco identificada anteriormente.

Por isso, a pergunta “qual a glicemia normal no primeiro trimestre?” Não deve ser respondida utilizando um único número isoladamente. O significado depende da estratégia diagnóstica empregada, idade gestacional, condições da coleta e contexto clínico.

Um resultado alterado deve ser avaliado pelo profissional responsável antes de qualquer conclusão diagnóstica.

Sorologias do pré-natal

A investigação de determinadas infecções é uma das partes mais importantes dos exames do início da gravidez, porque algumas doenças podem ser transmitidas da gestante para o bebê.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que HIV, sífilis e hepatite B sejam investigados durante a gestação, preferencialmente o mais cedo possível.

HIV

O diagnóstico durante o pré-natal permite iniciar rapidamente as medidas necessárias para reduzir o risco de transmissão vertical.

Por esse motivo, a testagem para HIV integra a rotina de exames da primeira consulta do pré-natal brasileiro.

Sífilis

A investigação precoce da sífilis é especialmente importante porque o tratamento adequado durante a gestação reduz o risco de sífilis congênita.

No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda testagem na primeira consulta do pré-natal, idealmente no primeiro trimestre, com repetição em outros momentos da gestação.

Hepatite B

A hepatite B também deve ser investigada no pré-natal.

O Ministério da Saúde orienta que a investigação seja realizada em todas as gestantes a partir do primeiro trimestre ou quando o pré-natal for iniciado.

A identificação precoce permite organizar o acompanhamento materno e as medidas necessárias para reduzir o risco de transmissão para o recém-nascido.

Toxoplasmose

A sorologia para toxoplasmose, geralmente baseada na pesquisa de anticorpos IgG e IgM, é utilizada para avaliar o perfil sorológico materno.

A interpretação não deve se limitar à ideia de que “IgM positivo significa infecção recente”. Dependendo da combinação dos resultados e do contexto clínico, exames complementares podem ser necessários para estimar quando ocorreu a infecção.

O Ministério da Saúde inclui IgG e IgM para toxoplasmose na rotina da primeira consulta do pré-natal de baixo risco.

Rubéola e citomegalovírus

É importante diferenciar exames frequentemente encontrados em solicitações particulares daqueles recomendados universalmente em todos os protocolos.

A necessidade de investigação para rubéola depende, entre outros fatores, do histórico vacinal, da situação clínica e do protocolo adotado.

Já o rastreamento sorológico universal de citomegalovírus (CMV) não deve ser tratado como exame obrigatório de toda gestante. Sua indicação e interpretação exigem contexto clínico, pois resultados sorológicos podem gerar dúvidas diagnósticas e eventualmente demandar investigação complementar.

Exame de urina e urocultura

A avaliação urinária merece atenção especial durante a gravidez.

Uma gestante pode apresentar bacteriúria assintomática, ou seja, crescimento significativo de bactérias na urina, mesmo sem sintomas típicos de infecção urinária.

Por isso, a urocultura possui papel importante no pré-natal.

O protocolo brasileiro de pré-natal de baixo risco recomenda urocultura com antibiograma na avaliação inicial.

O antibiograma, quando aplicável, avalia o perfil de sensibilidade do microrganismo isolado aos antimicrobianos testados.

O exame de urina tipo I, também chamado EAS, pode fornecer informações adicionais sobre leucócitos, hemácias, proteínas, glicose e outros componentes urinários, mas não substitui automaticamente a urocultura quando esta está indicada.

TSH e T4 livre na gravidez

A gestação provoca alterações fisiológicas importantes no funcionamento da tireoide e nos exames laboratoriais relacionados a ela.

Por esse motivo, TSH e T4 livre devem ser interpretados considerando a gravidez e, quando disponíveis, intervalos de referência adequados à população e ao período gestacional.

Outro ponto importante é que TSH e T4 livre não devem ser apresentados como exames obrigatórios para absolutamente todas as gestantes.

Na Linha de Cuidado do Ministério da Saúde para pré-natal de baixo risco, a triagem universal de gestantes assintomáticas para doenças tireoidianas não é recomendada; o TSH é indicado quando existe suspeita clínica ou diagnóstico prévio de disfunção tireoidiana.

A avaliação pode ser necessária, por exemplo, diante de história conhecida de doença tireoidiana ou outros elementos identificados durante a consulta.

Beta hCG quantitativo

O beta hCG quantitativo mede a concentração da gonadotrofina coriônica humana no sangue.

Ele pode ser útil para confirmar laboratorialmente uma gestação muito inicial e, em situações específicas, acompanhar sua evolução em conjunto com dados clínicos e ultrassonográficos.

Entretanto, existe um erro comum: tentar determinar se uma gravidez está evoluindo normalmente utilizando apenas um resultado isolado de beta hCG.

As concentrações apresentam ampla variabilidade entre diferentes gestações.

Quando existe indicação de acompanhamento seriado, a interpretação da variação do beta hCG deve considerar o valor inicial, o intervalo entre as coletas, os sintomas e os achados da ultrassonografia.

Depois que a gestação pode ser adequadamente avaliada por ultrassom, os achados ultrassonográficos passam a fornecer informações fundamentais sobre localização, idade gestacional e desenvolvimento embrionário/fetal.

Quando fazer o primeiro ultrassom na gravidez?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes no início do pré-natal.

Não existe uma única semana obrigatória para todas as gestantes. O momento do primeiro ultrassom da gravidez depende da finalidade do exame e da situação clínica.

Uma ultrassonografia realizada muito precocemente pode ainda não demonstrar todas as estruturas esperadas, simplesmente porque a gestação está em fase inicial.

Ultrassom transvaginal gestacional

Nas primeiras semanas, a ultrassonografia transvaginal pode proporcionar melhor visualização das estruturas iniciais da gestação.

O exame pode ajudar a determinar:

  • Localização da gestação;
  • Número de sacos gestacionais e embriões;
  • Presença de atividade cardíaca quando compatível com a idade gestacional;
  • Medidas embrionárias;
  • Estimativa da idade gestacional;
  • Características dos anexos e estruturas pélvicas, quando necessário.

A indicação pode ser especialmente importante quando existem dúvidas sobre a idade gestacional ou sintomas que exijam avaliação médica.

Ultrassonografia morfológica do primeiro trimestre

Entre aproximadamente 11 e 14 semanas, a ultrassonografia do primeiro trimestre assume outra função.

Nessa fase, além de confirmar aspectos relacionados ao desenvolvimento e à idade gestacional, é possível realizar avaliação anatômica precoce e marcadores utilizados no rastreamento de determinadas alterações.

A International Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology (ISUOG) possui diretriz específica para a realização do ultrassom entre 11+0 e 14+0 semanas.

É importante entender que a morfológica do primeiro trimestre não elimina a necessidade das avaliações ultrassonográficas indicadas posteriormente na gestação.

Para que serve a translucência nucal?

A translucência nucal (TN) corresponde à avaliação ultrassonográfica de uma pequena coleção de líquido localizada na região posterior do pescoço fetal.

Sua medida é realizada dentro de uma janela gestacional específica e seguindo critérios técnicos padronizados.

Uma translucência nucal aumentada pode estar associada a maior risco de alterações cromossômicas, incluindo trissomia 21 (síndrome de Down), além de algumas alterações estruturais, particularmente cardíacas.

Entretanto, a TN é um marcador de rastreamento, e não um diagnóstico.

Isso significa que uma TN aumentada não confirma que o bebê possui uma alteração cromossômica. Da mesma forma, uma TN dentro dos limites esperados não exclui todas as doenças genéticas ou malformações.

Quando um rastreamento apresenta risco aumentado, o obstetra pode discutir exames adicionais conforme cada situação.

NIPT: o que o teste detecta?

O NIPT, também chamado teste pré-natal não invasivo ou teste de DNA fetal livre/cfDNA, analisa fragmentos de DNA circulantes no sangue materno.

Ele pode ser utilizado para rastrear principalmente algumas aneuploidias fetais, como:

  • Trissomia 21;
  • Trissomia 18;
  • Trissomia 13.

Dependendo do teste utilizado, outros cromossomos ou condições podem ser incluídos.

O NIPT pode ser realizado precocemente na gravidez, de acordo com os critérios técnicos do método e do laboratório. Diretrizes contemporâneas incluem o cfDNA entre as estratégias de rastreamento pré-natal para aneuploidias.

Apesar da elevada capacidade de rastreamento para determinadas condições, NIPT não é exame diagnóstico.

Um resultado de alto risco precisa ser discutido com o profissional responsável e pode exigir confirmação por teste diagnóstico apropriado antes de decisões clínicas definitivas.

Também é importante destacar que o NIPT não substitui a ultrassonografia morfológica. Os exames fornecem informações diferentes e podem ser complementares.

Exames obrigatórios no SUS e no pré-natal particular são iguais?

Existe uma base de exames recomendados para o acompanhamento pré-natal, mas a solicitação concreta pode variar conforme protocolos assistenciais, disponibilidade regional e características individuais da gestante.

No SUS, a Linha de Cuidado do Ministério da Saúde estabelece uma rotina de exames para o pré-natal de baixo risco, incluindo avaliações laboratoriais e ultrassonográficas.

No atendimento particular, exames adicionais podem ser discutidos de acordo com indicação clínica, protocolos da instituição, histórico familiar e preferência informada da paciente.

Portanto, “mais exames” não significa necessariamente “melhor pré-natal”. Um bom acompanhamento utiliza exames com indicação apropriada, no momento correto e com interpretação integrada à história clínica.

Resumo: quais são os principais exames do primeiro trimestre?

Na avaliação inicial de uma gestação de baixo risco, podem fazer parte da rotina ou da investigação individualizada:

  • hemograma completo;
  • tipagem sanguínea ABO e fator Rh;
  • Coombs indireto quando indicado;
  • glicemia;
  • testagem para HIV;
  • sífilis;
  • hepatite B e, conforme protocolo brasileiro, hepatite C;
  • toxoplasmose IgG e IgM;
  • urocultura com antibiograma;
  • exame de urina quando indicado;
  • beta hCG em situações específicas;
  • TSH e outros exames tireoidianos quando houver indicação;
  • ultrassonografia obstétrica;
  • ultrassonografia do primeiro trimestre com avaliação da translucência nucal;
  • rastreamento genético pré-natal, como NIPT, quando escolhido após orientação adequada.

O ponto central é que os exames do primeiro trimestre da gravidez não devem ser interpretados isoladamente. Resultados laboratoriais, idade gestacional, ultrassonografia, antecedentes maternos e avaliação clínica precisam ser analisados em conjunto.

Iniciar o acompanhamento precocemente permite planejar os exames na idade gestacional adequada, identificar fatores de risco e organizar as próximas etapas do pré-natal.

Perguntas Frequentes

Não. Nem todos os exames do pré-natal exigem jejum. A necessidade depende do teste solicitado e da metodologia do laboratório. Quando houver glicemia de jejum entre os exames, por exemplo, devem ser seguidas as orientações específicas fornecidas pelo laboratório ou profissional responsável.

Vários exames laboratoriais podem ser coletados no mesmo dia, mas alguns exames possuem indicação vinculada à idade gestacional. Ultrassonografias e testes de rastreamento fetal, por exemplo, precisam respeitar períodos específicos para que forneçam informações adequadas.

Sim, alguns exames podem precisar ser repetidos em outros períodos da gravidez mesmo quando o primeiro resultado é normal. Sífilis, HIV, hemograma e determinados exames urinários são exemplos cuja repetição pode fazer parte do acompanhamento, conforme protocolo e avaliação obstétrica.

Não. Ser Rh negativo, isoladamente, não significa que haverá complicação. A informação é importante para avaliar o risco de aloimunização e definir o acompanhamento e a profilaxia apropriados quando indicados.

Não. O NIPT é um exame de rastreamento e reduz a probabilidade de determinadas aneuploidias quando apresenta resultado de baixo risco, mas não consegue excluir todas as alterações cromossômicas, doenças genéticas ou malformações.

Sim. Ultrassonografia e NIPT avaliam aspectos diferentes da gestação. Um resultado de NIPT classificado como alto risco não deve ser considerado diagnóstico definitivo e precisa ser avaliado pelo obstetra, que poderá discutir aconselhamento genético e exames confirmatórios.

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