Ozempic Preserva Mais Músculo do Que Mounjaro? O Que o Novo Estudo Revela

Imagem ilustrativa gerada por IA para fins educacionais. As marcas citadas pertencem aos seus respectivos fabricantes.
Pesquisa com quase 8 mil pacientes revela que o emagrecedor que mais emagrece pode ser o que mais "come" seus músculos. Entenda o que isso muda na prática.

Mounjaro e Ozempic: O Número na Balança Está te Enganando?

Você perdeu 8 quilos em três meses. A calça voltou a fechar. O médico sorriu. Mas e se parte desses 8 quilos não fosse gordura — e sim músculo?

Um estudo divulgado em abril de 2026 pela empresa de análise de dados nference, com sede em Massachusetts (EUA), levantou exatamente essa questão ao comparar dois dos emagrecedores injetáveis mais usados no mundo: a semaglutida (conhecida pelas marcas Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro e Zepbound). Os dados, ainda em pré-publicação aguardando revisão por pares completa, analisaram registros clínicos reais de aproximadamente 8 mil pacientes — e os resultados surpreenderam até os próprios pesquisadores.

A tirzepatida (Mounjaro), campeã em perda de peso nos ensaios clínicos, mostrou-se associada a uma perda proporcionalmente maior de massa magra — o conjunto de músculos, ossos e tecido conjuntivo que sustenta o corpo, o metabolismo e a qualidade de vida.

Mounjaro e Ozempic: O Que o Estudo Encontrou (em Números Claros)

Os pesquisadores acompanharam pacientes por até 12 meses, usando tanto exames de baixa radiação (como o DEXA) quanto balanças inteligentes capazes de estimar a composição corporal. Os dados revelaram:

  • Usuários de tirzepatida perderam, em média, 1,1% a mais de massa magra após 3 meses de uso, em comparação aos usuários de semaglutida.
  • Após 12 meses de tratamento contínuo, essa diferença subiu para 2% a mais de massa magra perdida com tirzepatida.
  • Entre os pacientes que perderam mais de 20% do peso corporal total, cerca de 10% dos usuários de tirzepatida também perderam mais de 5% de sua massa magra — contra menos de 7% entre os usuários de semaglutida.

Doses mais altas, tratamentos mais longos e a presença de dores musculoesqueléticas antes do início do uso foram identificados como fatores que intensificam essa perda, em ambos os medicamentos.

Por Que Isso Importa — A Analogia da Casa

Costumo sempre falar, pense no seu corpo como uma casa. A gordura acumulada seria o móvel velho que você quer jogar fora. A massa magra — músculos, ossos, tecido conjuntivo — seria a estrutura da casa: as paredes, as vigas, a fiação elétrica. Você quer se livrar dos móveis sem derrubar as paredes.

O problema é que certos processos de emagrecimento acelerado podem, sem aviso, começar a derrubar as paredes também. E é difícil notar isso enquanto a balança continua caindo.

Perder músculo de forma significativa tem consequências que vão muito além da estética:

  • Metabolismo mais lento: músculo consome mais energia em repouso do que gordura. Menos músculo = queima calórica menor = maior dificuldade de manter o peso perdido.
  • Força e mobilidade reduzidas: impacto direto na qualidade de vida, especialmente em adultos acima dos 50 anos.
  • Maior risco de lesões e quedas: especialmente relevante para idosos e pessoas com histórico ortopédico.
  • Efeito rebote amplificado: ao parar o medicamento, o corpo tem menos músculo para manter o metabolismo ativo — o que acelera a recuperação do peso perdido.

Mounjaro e Ozempic: O “Porquê” Biológico: GLP-1 Versus GLP-1 + GIP

A semaglutida (Ozempic) funciona como um ator que interpreta um único papel no organismo: ela imita o hormônio GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1), que sinaliza saciedade ao cérebro e desacelera o esvaziamento gástrico. Simples, direta, eficaz.

A tirzepatida (Mounjaro) é uma molécula de dupla ação: além de imitar o GLP-1, ela também imita o GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose). Esse segundo hormônio tem receptores em tecidos além do trato digestivo — incluindo células musculares e adiposas.

A hipótese dos pesquisadores é que essa ação dual (dupla) sobre receptores de GIP pode alterar o metabolismo muscular de formas ainda não completamente mapeadas pela ciência. O estudo, porém, não estabeleceu causalidade definitiva — apenas uma associação estatisticamente significativa.

“Isso sugere que os pacientes não devem pensar de forma simplista: ‘Quero perder X quantidade de peso e vou escolher a opção que proporciona maior perda de peso’.”

Venky Soundararajan, pesquisador-líder do estudo, nference (Massachusetts, EUA)

Mounjaro e Ozempic: O Ciclo Vicioso Que Ninguém Conta

O estudo identificou um padrão preocupante que funciona como uma espiral descendente:

  1. O medicamento induz perda de massa magra, especialmente em doses mais altas.
  2. Menos músculo → menor tolerância ao exercício físico.
  3. Menos exercício → mais perda muscular (o músculo se degrada sem estímulo).
  4. Mais perda muscular → maior risco de dores articulares e quedas.
  5. Mais dor → ainda menos exercício. E o ciclo recomeça.

“É um ciclo vicioso”, descreveu Soundararajan. “Se você começa com um medicamento que aumenta a probabilidade de perda de massa muscular e tem um histórico de doenças musculoesqueléticas, isso eleva o risco de menor tolerância ao exercício. E se você não se exercita enquanto toma esses medicamentos, está essencialmente causando a perda de massa muscular.”

O Que a Ciência Já Sabia — Contexto Que o Estudo Não Aborda

Esse debate não surge num vácuo. Há anos, a literatura científica sobre cirurgia bariátrica e tratamentos dietéticos intensivos já documentava a perda de massa magra como efeito colateral do emagrecimento acelerado — independentemente do método.

O que diferencia este estudo é a comparação direta entre moléculas dentro da mesma classe terapêutica, sugerindo que o mecanismo biológico específico de cada medicamento importa para além da perda de peso total.

Outro dado relevante de contexto: a sarcopenia — perda progressiva de massa muscular associada ao envelhecimento — já é classificada como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2016 e afeta estima-se entre 10% e 27% dos adultos acima dos 60 anos no Brasil, segundo dados da literatura nacional. Para essa população, qualquer fator adicional de perda muscular merece atenção redobrada.

A boa notícia, consolidada por décadas de pesquisa em nutrição esportiva: treinamento resistido (musculação, exercícios com peso corporal, pilates com carga) e ingestão adequada de proteínas (entre 1,6 g e 2,2 g por kg de peso corporal por dia, segundo o consenso atual) são os principais antídotos contra a perda muscular em qualquer contexto de emagrecimento — inclusive durante o uso de GLP-1.

Semaglutida vs. Tirzepatida: Quadro Comparativo

SemaglutidaTirzepatida
Nomes comerciais: Ozempic, WegovyNomes comerciais: Mounjaro, Zepbound
Mecanismo: Agonista GLP-1Mecanismo: Agonista GLP-1 + GIP
Perda de peso: SignificativaPerda de peso: Maior (em média)
Perda de massa magra: MenorPerda de massa magra: Maior (+2% após 12 meses)
Usuários com >5% de perda de massa magra (ao emagrecer >20%): < 7%Usuários com >5% de perda de massa magra (ao emagrecer >20%): ~10%
Benefícios cardiovasculares: ComprovadosBenefícios cardiovasculares: Comprovados
Status do estudo comparativo: Pré-publicação (abril/2026)Status do estudo comparativo: Pré-publicação (abril/2026)

Fontes: nference (2026); bulas aprovadas pela Anvisa; ensaios clínicos STEP e SURMOUNT.

O Que Você Deve Fazer Agora — 5 Passos Práticos

1. Peça ao seu médico uma avaliação de composição corporal

Não basta monitorar o peso na balança. Solicite exames de bioimpedância ou, em casos com indicação clínica, DEXA (densitometria de corpo inteiro) para acompanhar a relação entre massa gorda e massa magra ao longo do tratamento. Essa informação deve orientar ajustes de dose e estratégia.

2. Inclua exercício resistido na sua rotina — sem negociação

Musculação, pilates com carga, exercícios com faixas elásticas ou com o próprio peso corporal são a principal ferramenta de preservação muscular disponível. Pelo menos duas sessões por semana já demonstram efeito protetor na literatura científica. Se você nunca treinou, comece com a supervisão de um profissional de educação física.

3. Revise a sua ingestão de proteínas com um nutricionista

Durante o uso de emagrecedores, o apetite reduzido pode levar à ingestão insuficiente de proteínas — o que agrava a perda muscular. Consulte um nutricionista para calcular sua necessidade individual e distribua a proteína ao longo do dia: ovos, frango, peixe, carnes magras, leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico) e laticínios são fontes acessíveis e eficazes.

4. Não escolha o medicamento apenas pela velocidade de emagrecimento

Se você tem histórico de fraqueza muscular, osteopenia, osteoporose, artrite ou dores articulares crônicas, discuta com seu médico qual perfil de segurança faz mais sentido para o seu caso — não apenas qual medicamento emagrece mais rápido. A decisão deve levar em conta seu ponto de partida clínico.

5. Monitore sinais de alerta durante o tratamento

Fique atento a: cansaço desproporcional ao esforço, redução progressiva da força muscular, dores articulares novas ou piora das existentes, e dificuldade crescente para realizar atividades físicas que antes faziam parte da rotina.

Se notar qualquer desses sinais, informe seu médico imediatamente — podem ser indicadores de perda de massa magra clinicamente relevante.

Ponto de Vista Cauteloso — A Outra Face da Moeda

É fundamental contextualizar os resultados deste estudo com honestidade intelectual.

Limitações metodológicas importantes:

  • O estudo é observacional e retrospectivo, baseado em dados de registros clínicos reais, não em ensaio clínico randomizado e controlado. Isso significa que não é possível estabelecer causalidade direta — apenas associação.
  • O trabalho ainda está em pré-publicação (preprint), aguardando revisão completa por pares, o processo pelo qual outros cientistas independentes verificam a metodologia e os resultados antes da publicação formal.
  • Fatores como diferenças no perfil dos pacientes, qualidade da dieta e nível de atividade física podem ter influenciado os resultados sem terem sido completamente controlados.

A posição dos fabricantes:

Representantes da Eli Lilly (fabricante da tirzepatida) argumentaram que, em seus ensaios clínicos de fase final, a proporção de perda de massa gorda em relação à massa magra foi consistente com a observada em outros tratamentos para obesidade baseados em mudanças de estilo de vida.

Já a Novo Nordisk (fabricante da semaglutida) afirmou que alterações na massa muscular não diferiram significativamente entre os grupos com semaglutida e placebo em seus ensaios, e que a função física dos pacientes foi preservada.

A perspectiva clínica prudente:

Um endocrinologista experiente diria que este estudo gera hipóteses relevantes e justifica atenção clínica redobrada — mas não muda, por si só, os protocolos terapêuticos estabelecidos. O que muda é a qualidade das perguntas que médico e paciente precisam fazer juntos antes, durante e após o tratamento.

Nenhum estudo isolado, especialmente em pré-publicação, deve ser usado como base para decisões individuais de saúde.

Conclusão: O Peso Certo é o Peso Sustentável

A medicina da obesidade avança rapidamente — e isso é uma boa notícia. Mas quanto mais sofisticadas as ferramentas, mais sofisticadas precisam ser as decisões.

O estudo da nference não diz que tirzepatida é ruim. Diz que emagrecer mais não é necessariamente emagrecer melhor — e que a composição do que se perde importa tanto quanto a quantidade perdida. Para muitos pacientes, preservar o músculo que carrega o corpo ao longo da vida pode valer mais do que alguns quilos a mais na balança.

O número ideal no consultório não é o que aparece na balança. É o que aparece quando se olha para a composição corporal, a força funcional, a qualidade de vida — e a conversa honesta entre médico e paciente sobre o que realmente está sendo perdido.


Este artigo tem finalidade informativa e educacional. Não substitui a avaliação clínica individualizada por um profissional de saúde habilitado. Antes de iniciar, alterar ou interromper qualquer tratamento, consulte seu médico.

Perguntas Frequentes

Sim, mas é mais desafiador. O ganho de massa muscular durante o uso desses medicamentos exige treino resistido regular, ingestão adequada de proteínas e acompanhamento profissional. Como o apetite diminui, muitos pacientes consomem menos nutrientes do que o necessário para hipertrofia.

Na maioria dos casos, sim. Com treinamento de força estruturado e dieta adequada, é possível recuperar parte da massa muscular perdida. No entanto, a recuperação pode ser mais lenta em idosos ou pessoas sedentárias.

Não diretamente. A perda muscular é avaliada principalmente por exames de composição corporal como bioimpedância ou DEXA. Alguns exames laboratoriais podem indicar indiretamente alterações metabólicas, mas não medem massa muscular com precisão.

Sim. Indivíduos com menor reserva de gordura corporal podem apresentar maior proporção de perda de massa magra durante o emagrecimento, especialmente se não houver estímulo muscular adequado.

O whey protein pode ser uma estratégia prática para atingir a ingestão proteica diária recomendada, especialmente quando o apetite está reduzido. Ele ajuda na preservação muscular, mas não substitui uma alimentação equilibrada.

Pode aumentar, especialmente se houver ingestão insuficiente de proteínas. A combinação de jejum prolongado com medicamentos que reduzem o apetite pode agravar o déficit nutricional e favorecer a perda de massa magra.

Sim. Idosos já apresentam maior risco de sarcopenia. O uso desses medicamentos exige monitoramento mais rigoroso da massa muscular, ingestão proteica e capacidade funcional.

Sim. A hidratação adequada é essencial para o funcionamento muscular, recuperação pós-exercício e metabolismo geral. A desidratação pode impactar negativamente a performance e a manutenção da massa magra.

Sim, a creatina é uma das substâncias mais estudadas para preservação e ganho de força muscular. Pode ser útil durante o uso desses medicamentos, desde que orientada por profissional de saúde.

Em algumas pessoas, sinais podem surgir em poucas semanas, especialmente sem estímulo físico. A perda de força pode preceder alterações visíveis na composição corporal.

Não necessariamente. A perda de alguma massa magra é comum em qualquer processo de emagrecimento, mas sua magnitude pode ser controlada. Exercício resistido e ingestão adequada de proteínas reduzem significativamente esse efeito. O medicamento deve ser tratado como uma ferramenta dentro de uma estratégia mais ampla.

Sim, possuem o mesmo princípio ativo em cada par. Ozempic e Wegovy contêm semaglutida, com indicações e doses diferentes. Mounjaro e Zepbound contêm tirzepatida. Os efeitos no corpo estão ligados à substância ativa, não apenas ao nome comercial.

Não tome essa decisão sozinho. O estudo ainda está em pré-publicação e não estabelece causalidade. A tirzepatida continua sendo eficaz para muitos pacientes. A decisão deve ser individualizada, com orientação médica, considerando riscos e benefícios.

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