Enquanto a demanda por injetáveis para perda de peso explode no Brasil, o mercado paralelo cresce na mesma velocidade — e os riscos à saúde são muito mais sérios do que a maioria imagina.
O problema vai além do rótulo
Quando um medicamento não tem registro sanitário, o problema não é apenas documental. Significa que nenhuma autoridade verificou a concentração da substância ativa, a ausência de contaminantes, a esterilidade do produto ou a estabilidade da fórmula ao longo do tempo. Em outros termos: ninguém sabe o que está dentro.
As duas canetas banidas — Gluconex e Tirzedral — contêm tirzepatida como suposto princípio ativo. O fabricante não foi identificado. A origem é desconhecida. E ainda assim elas circulavam no mercado brasileiro.
Comprar uma dessas canetas é como adquirir um analgésico de um vendedor sem nome, sem embalagem original e sem bula — e injetá-lo diretamente na sua corrente sanguínea. O risco não é teórico.
O que é a tirzepatida — e por que ela atrai tanto interesse
A tirzepatida (nome comercial Mounjaro®) é uma molécula sintética que age simultaneamente em dois sistemas hormonais responsáveis pela regulação do apetite e do metabolismo: os receptores de GLP-1 (glucagon-like peptide-1) e GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide). Enquanto medicamentos com semaglutida, como o Ozempic e o Wegovy, ativam apenas o receptor GLP-1, a tirzepatida aciona os dois ao mesmo tempo.
Pense assim: o GLP-1 funciona como um sinal de “estou satisfeito” enviado ao cérebro após as refeições. O GIP, por sua vez, otimiza como as células utilizam energia. Acionar os dois juntos resulta numa redução de apetite mais intensa e numa queima calórica mais eficiente — daí os resultados clínicos superiores.
Esses dados, publicados em 2025 no New England Journal of Medicine, explicam por que a tirzepatida se tornou um dos medicamentos mais procurados do Brasil — e por que o mercado irregular cresceu tão rápido.
A patente ainda está vigente
No Brasil, a patente do Mounjaro (único produto com tirzepatida registrado na Anvisa) ainda está em vigor. Isso significa que, juridicamente, não existe nenhum genérico legal dessa substância no país. Qualquer outra caneta vendida com tirzepatida é, por definição, irregular — independentemente da aparência da embalagem ou da promessa do vendedor.
O que você deve fazer agora
- Consulte o registro antes de qualquer compra. Acesse consultaremédios.anvisa.gov.br e pesquise o nome do produto. Se não houver registro ativo, não adquira — independentemente do preço ou da indicação.
- Desconfie de preços muito abaixo do mercado. Produzir tirzepatida com segurança farmacêutica tem custo elevado. Uma caneta vendida por um terço do preço do produto original é um sinal de alerta claro.
- Exija prescrição médica e acompanhamento contínuo. Medicamentos desta classe têm indicações específicas e contraindicações relevantes. Usá-los sem supervisão profissional aumenta drasticamente o risco de reações adversas graves.
- Denuncie produtos suspeitos à Anvisa. O canal oficial é o site anvisa.gov.br ou o telefone 0800 642 9782. A denúncia é gratuita e pode proteger outras pessoas.
- Pergunte ao seu médico sobre as opções legais disponíveis. Existem caminhos seguros e regulamentados para o tratamento da obesidade no Brasil — incluindo versões autorizadas de semaglutida e, em algumas localidades, acesso público à tirzepatida.
Mesmo os produtos com registro exigem avaliação médica individual. A tirzepatida e a semaglutida são contraindicadas em pacientes com histórico de pancreatite , carcinoma medular de tireoide, doença renal avançada ou síndrome MEN2. Além disso, o uso sem acompanhamento nutricional adequado pode resultar em perda significativa de massa muscular junto com a gordura — comprometendo a saúde metabólica a longo prazo. Resultados rápidos nunca devem sobrepor uma avaliação clínica completa.
Perguntas Frequentes
Sim. A interrupção do medicamento sem mudança no estilo de vida pode levar ao reganho de peso, pois os mecanismos de controle do apetite voltam ao padrão anterior.
Podem afetar. Quando usadas sem orientação adequada, podem levar à perda de massa muscular e alterações metabólicas que dificultam a manutenção do peso no futuro.
Não há dependência química clássica, mas pode ocorrer dependência comportamental, onde o paciente sente dificuldade em manter o peso sem o uso do medicamento.
Porque podem conter substâncias desconhecidas, doses incorretas ou contaminantes, aumentando o risco de efeitos graves como infecções, reações alérgicas e falhas terapêuticas.
- JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. New England Journal of Medicine, 2022. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2206038. Acesso em: 14 abr. 2026.
- WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity. New England Journal of Medicine, 2021. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2032183. Acesso em: 14 abr. 2026.
- AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Pharmacologic approaches to glycemic treatment. Diabetes Care, 2023. Disponível em: https://diabetesjournals.org/care/article/46/Supplement_1/S140/148829. Acesso em: 16 abr. 2026.
- RUBINO, D. et al. Effect of continued weekly subcutaneous semaglutide vs placebo on weight loss maintenance. JAMA, 2021. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2777886. Acesso em: 15 abr. 2026.
- WORLD HEALTH ORGANIZATION. Substandard and falsified medical products. WHO, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/substandard-and-falsified-medical-products. Acesso em: 15 abr. 2026.

Soraia Antunes é uma experiente jornalista e comunicadora, formada em Comunicação desde 2011, pela Universidade de São Paulo (USP), Soraia iniciou sua trajetória profissional em redações locais, onde rapidamente se destacou pela sua habilidade em transmitir histórias complexas de maneira clara e envolvente. Ao longo dos anos, ela acumulou experiência em diversos veículos de comunicação respeitados, incluindo jornais, revistas e emissoras de televisão.

