Um estudo recente publicado na revista científica Nature revelou algo surpreendente: células do intestino podem guardar uma memória molecular de episódios de inflamação, mesmo após a recuperação clínica.
Essa “memória” ocorre nas células-tronco do cólon e pode alterar a forma como elas respondem a mutações futuras — acelerando o crescimento de tumores.
A descoberta ajuda a explicar por que pessoas com doenças inflamatórias intestinais, como a colite ulcerativa, apresentam risco maior de desenvolver **câncer colorretal ao longo da vida.
O que os cientistas descobriram
Pesquisadores analisaram modelos experimentais de inflamação crônica do intestino (colite) para entender o que acontece nas células após a recuperação da doença.
O resultado foi inesperado.
Mesmo mais de 100 dias após a inflamação desaparecer, as células-tronco intestinais ainda apresentavam alterações no seu epigenoma — o conjunto de mecanismos que controla quais genes são ativados ou silenciados.
Essas alterações funcionam como uma “memória biológica” da inflamação passada.
Essa memória foi associada à ativação de um importante regulador molecular chamado AP-1, um fator de transcrição que controla genes envolvidos em:
- Inflamação
- Reparo de tecidos
- proliferação celular
- crescimento tumoral
Quando ocorre uma mutação oncogênica, essa memória epigenética pode fazer com que as células respondam de forma exagerada, acelerando o crescimento de tumores.
O “porquê” científico: como a inflamação altera o DNA sem mudar os genes
Para entender melhor, imagine o DNA como uma biblioteca de livros (genes).
O epigenoma funciona como marcadores que dizem quais páginas devem ser abertas ou ignoradas.
Durante um episódio de inflamação intestinal:
- certos genes de defesa são ativados
- regiões do DNA ficam mais acessíveis
- proteínas reguladoras passam a atuar nesses locais
Mesmo quando a inflamação desaparece, alguns desses “marcadores epigenéticos” permanecem.
Isso significa que, no futuro, essas células podem responder mais rapidamente — ou de forma exagerada — a novos estímulos.
É como se o sistema celular tivesse memorizado a inflamação anterior.
Uma descoberta tecnológica importante
O estudo também apresentou uma nova tecnologia chamada SHARE-TRACE.
Essa ferramenta permite analisar simultaneamente em uma única célula:
- Expressão de genes
- Acessibilidade da cromatina (estrutura do DNA)
- Histórico clonal das células
Com isso, os cientistas conseguiram observar como essa memória inflamatória é transmitida quando as células-tronco se dividem.
Ou seja:
A memória da inflamação pode ser herdada por gerações de células.
O que isso significa para quem tem doenças inflamatórias intestinais
Condições como:
- Colite ulcerativa
- Doença de Crohn
já são conhecidas por aumentar o risco de **câncer colorretal.
Esse estudo fornece uma explicação molecular para essa associação.
Mesmo quando a inflamação entra em remissão, as células podem permanecer biologicamente alteradas.
Isso reforça a importância de:
- Monitoramento médico contínuo
- Colonoscopias periódicas
- Controle rigoroso da inflamação
O que você deve fazer agora (dicas práticas)
Se você tem histórico de inflamação intestinal, algumas atitudes podem reduzir riscos futuros:
Controle rigoroso da inflamação
Seguir corretamente o tratamento prescrito ajuda a evitar episódios inflamatórios repetidos.
Realize exames de rastreamento
Pacientes com colite crônica geralmente precisam de colonoscopia regular para detectar alterações precoces.
Adote hábitos anti-inflamatórios
Alguns fatores ajudam a reduzir inflamação sistêmica:
- Dieta rica em fibras
- Consumo de frutas e vegetais
- Atividade física regular
- Controle do peso
Evite tabagismo
O cigarro aumenta o risco de inflamação intestinal e câncer.
Acompanhe com gastroenterologista
O acompanhamento especializado permite ajustar terapias e detectar complicações cedo.
Um ponto de cautela que os especialistas destacam
Embora os resultados sejam promissores, o estudo foi realizado principalmente em modelos experimentais (camundongos).
Isso significa que ainda são necessários estudos clínicos em humanos para confirmar:
- O impacto exato dessa memória epigenética
- Se ela pode ser revertida
- Como utilizá-la para prevenir câncer
Mesmo assim, os achados abrem caminho para novas estratégias de diagnóstico e terapias preventivas.
Conclusão
A descoberta publicada na revista Nature revela um novo capítulo na compreensão da relação entre inflamação e câncer.
Ela mostra que a inflamação não apenas causa danos temporários — ela pode deixar uma memória molecular duradoura nas células do intestino.
Entender esse processo pode abrir caminho para:
- Novos exames de risco
- Terapias preventivas
- Tratamentos personalizados para doenças inflamatórias.
Em outras palavras, a ciência está começando a decifrar como o passado do nosso corpo pode influenciar a saúde do futuro.
Perguntas Frequentes
A memória epigenética é a capacidade das células de manter marcas químicas no DNA ou na estrutura da cromatina após um evento biológico, como uma inflamação. Essas marcas não alteram a sequência genética, mas podem influenciar quais genes são ativados ou silenciados, afetando o comportamento celular por longos períodos.
As doenças inflamatórias intestinais, especialmente a colite ulcerativa e a doença de Crohn que acomete o cólon, são as mais associadas ao aumento do risco de câncer colorretal. O risco tende a crescer com o tempo de duração da doença, extensão da inflamação e presença de inflamação persistente.
Sim. A colonoscopia é o principal exame utilizado para detectar alterações precoces no intestino, incluindo inflamação, pólipos e lesões pré-cancerosas. Em pacientes com doenças inflamatórias intestinais, o acompanhamento regular com colonoscopia é recomendado para reduzir o risco de diagnóstico tardio de câncer.
Alguns padrões alimentares podem ajudar a reduzir a inflamação intestinal, como dietas ricas em fibras, frutas, vegetais, peixes e alimentos com propriedades anti-inflamatórias. Evitar excesso de alimentos ultraprocessados, gordura saturada e álcool também pode contribuir para manter a saúde intestinal.
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Mariana Soares – biomédica patologista clínica, com uma carreira sólida e reconhecida no campo das análises laboratoriais e diagnóstico clínico. Formada em Biomedicina, é inscrita no Conselho Regional de Biomedicina (CRBM 60562/ES), atua com compromisso e ética profissional, buscando constantemente a excelência na qualidade dos serviços de saúde.

