Imagine descobrir o risco de desenvolver depressão anos antes dos primeiros sintomas aparecerem.
Essa possibilidade pode estar mais próxima da realidade do que se imaginava. Pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), identificaram alterações em genes presentes no sangue que estão diretamente relacionadas à depressão.
A descoberta sugere que o corpo pode carregar marcadores biológicos capazes de indicar o risco futuro da doença, abrindo caminho para novos métodos de diagnóstico e prevenção.
Hoje, a depressão afeta mais de 280 milhões de pessoas no mundo, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde. Ainda assim, o diagnóstico depende quase exclusivamente da avaliação clínica dos sintomas.
Mas isso pode começar a mudar.
O que os cientistas encontraram
Para chegar a essa conclusão, pesquisadores analisaram milhares de amostras de sangue armazenadas em bancos de dados científicos.
Ao comparar pessoas com depressão com indivíduos saudáveis, os cientistas identificaram mudanças na atividade de vários genes.
Entre os resultados que chamaram mais atenção:
- 1.383 genes apresentaram atividade alterada
- 73 genes estavam ligados à comunicação entre neurônios
- 18 genes mostraram potencial para diferenciar pessoas com depressão
O detalhe mais curioso é que essas alterações apareceram em glóbulos brancos, células que fazem parte do sistema de defesa do organismo.
Isso sugere que a depressão pode deixar sinais detectáveis fora do cérebro, refletindo uma interação complexa entre mente e corpo.
O papel da inflamação no cérebro
Nos últimos anos, pesquisadores começaram a observar que muitos pacientes com depressão apresentam níveis aumentados de inflamação no organismo.
Esse processo inflamatório pode afetar substâncias químicas importantes para o humor, como:
- Serotonina
- Dopamina
- Neurotransmissores ligados ao estresse
Uma forma simples de entender esse mecanismo é imaginar o organismo como um sistema integrado de comunicação.
Quando ocorre inflamação persistente no corpo, sinais químicos circulam pela corrente sanguínea e podem interferir na atividade cerebral.
Isso ajuda a explicar por que a depressão muitas vezes vem acompanhada de sintomas físicos, como:
- Cansaço constante
- Alterações no sono
- Dores difusas
- Problemas digestivos
Cada vez mais pesquisadores consideram a depressão uma condição que envolve todo o organismo — não apenas o cérebro.
Por que essa descoberta pode ser importante
Hoje, o diagnóstico da depressão depende quase totalmente da avaliação clínica.
Ou seja, médicos analisam os sintomas relatados pelo paciente e o impacto deles na rotina.
Não existe um exame laboratorial capaz de confirmar a doença.
Se estudos futuros confirmarem essas descobertas, testes sanguíneos poderiam ajudar a:
- Identificar pessoas com maior risco de depressão
- Medir gravidade do transtorno
- Orientar tratamentos mais personalizados
- Acompanhar resposta a medicamentos
Ainda é cedo para dizer quando esse tipo de exame poderá chegar aos consultórios, mas a pesquisa abre um caminho promissor.
O que a ciência ainda precisa esclarecer
Apesar dos resultados animadores, especialistas destacam que a depressão é uma doença complexa.
Ela não depende apenas de fatores genéticos.
Diversos elementos influenciam o risco de desenvolver o transtorno, incluindo:
- Histórico familiar
- Eventos traumáticos
- Estresse crônico
- Qualidade do sono
- Estilo de vida
Por isso, mesmo que biomarcadores sanguíneos sejam desenvolvidos no futuro, eles provavelmente funcionarão como ferramentas complementares, e não como diagnóstico definitivo.
O que você pode fazer agora para cuidar da saúde mental
Embora exames genéticos ainda não estejam disponíveis, algumas medidas já demonstraram impacto positivo na prevenção da depressão.
Entre elas:
Manter atividade física regular
Exercícios ajudam a estimular neurotransmissores associados ao bem-estar.
Priorizar o sono
Dormir mal altera a regulação emocional e aumenta o risco de transtornos mentais.
Reduzir inflamação do organismo
Uma alimentação equilibrada, rica em frutas, vegetais e gorduras saudáveis, pode ajudar.
Buscar apoio quando necessário
Conversar com profissionais de saúde mental pode fazer grande diferença no início dos sintomas.
Em resumo
A identificação de genes ligados à depressão no sangue representa mais um passo para entender melhor a biologia da saúde mental.
Embora ainda sejam necessários novos estudos, a descoberta reforça uma ideia cada vez mais aceita na ciência: mente e corpo estão profundamente conectados — e a saúde mental também pode deixar marcas no organismo.
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Lincoln Soledade, – Biomédico CRBM 41556/ES. Mestrando em Gestão em Saúde Pública. Especialista em Patologia Clínica e pós-graduado em Estética Avançada, atua desde 2018 na área de diagnóstico clínico hospitalar. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado à aplicação rigorosa do conhecimento científico para promover diagnósticos precisos, contribuindo significativamente para a qualidade do cuidado em saúde.

