A glicina é um aminoácido classificado como não essencial, pois o organismo consegue produzi-la. No entanto, sua relevância fisiológica vai muito além da simples composição das proteínas. Ela atua como neurotransmissor inibitório, participa da síntese do colágeno e exerce influência direta sobre a qualidade do sono, ansiedade, resposta inflamatória e o metabolismo energético.
Na prática clínica e laboratorial, a glicina integra o aminograma plasmático e vem sendo reconhecida como um biomarcador metabólico e neurológico de grande valor, especialmente na avaliação da síndrome metabólica, distúrbios do sono, doenças neurológicas raras e saúde musculoesquelética.
O que é a glicina
A glicina é o aminoácido mais simples estruturalmente, composta por apenas um átomo de carbono. Essa simplicidade confere alta versatilidade metabólica, permitindo sua participação em diversas reações bioquímicas essenciais.
Embora o organismo consiga sintetizar glicina a partir de outros aminoácidos (como a serina), essa produção nem sempre é suficiente em situações de maior demanda fisiológica, como:
Estresse metabólico
Inflamação crônica
Envelhecimento
Atividade física intensa
Doenças metabólicas
A glicina está presente em altas concentrações no sistema nervoso central, no tecido conjuntivo, na matriz extracelular e, principalmente, no colágeno, onde exerce papel estrutural crítico.
Glicina como neurotransmissor inibitório
No sistema nervoso central, a glicina atua como um neurotransmissor inibitório, especialmente na medula espinhal, tronco encefálico e retina. Sua função é reduzir a excitabilidade neuronal, equilibrando a atividade elétrica cerebral.
Essa ação está associada a:
Redução da ansiedade
Sensação de calma e relaxamento
Diminuição da hiperatividade neural
Modulação do ciclo sono–vigília
Proteção contra excitotoxicidade
Por esse motivo, níveis adequados de glicina são fundamentais para o equilíbrio neuroquímico e emocional.
Glicina e qualidade do sono
A glicina exerce papel importante na arquitetura do sono, especialmente no sono profundo (NREM). Diferente de medicamentos sedativos, sua ação ocorre por modulação fisiológica, sem induzir dependência ou efeito residual.
Estudos clínicos demonstram que a glicina pode:
Reduzir o tempo para adormecer
Melhorar a continuidade do sono
Diminuir despertares noturnos
Aumentar a sensação de descanso ao acordar
Regular a temperatura corporal durante o sono
Esses efeitos tornam a glicina um alvo relevante na investigação de insônia funcional e sono não reparador.
Glicina e síntese de colágeno
Cerca de 30% da estrutura do colágeno é composta por glicina, o que torna esse aminoácido indispensável para a integridade dos tecidos estruturais.
Ela contribui diretamente para:
Saúde e elasticidade da pele
Resistência dos tendões e ligamentos
Estabilidade das articulações
Cicatrização tecidual
Manutenção da matriz extracelular
Níveis baixos de glicina podem comprometer a qualidade do colágeno, favorecendo flacidez cutânea, dores articulares e maior risco de lesões musculoesqueléticas.
Glicina e saúde metabólica
Nos últimos anos, a glicina tem sido reconhecida como um marcador metabólico emergente. Diversos estudos evidenciam que níveis séricos reduzidos estão associados a:
Resistência à insulina
Síndrome metabólica
Inflamação crônica de baixo grau
Estresse oxidativo aumentado
A glicina atua metabolicamente por meio de:
Melhora da sensibilidade à insulina
Redução de citocinas inflamatórias
Participação na síntese de glutationa (antioxidante central)
Apoio ao controle glicêmico
Esse conjunto de ações amplia significativamente sua relevância na avaliação metabólica avançada.
Deficiência de glicina: sinais e sintomas
Apesar de ser considerada não essencial, a deficiência funcional de glicina é relativamente comum, especialmente em indivíduos com dietas inadequadas ou doenças metabólicas.
Principais sinais e sintomas de glicina baixa
Ansiedade persistente
Sono não reparador
Fadiga mental
Dores articulares e musculares
Pele com perda de elasticidade
Recuperação lenta de lesões
A confirmação diagnóstica deve ser feita por exame laboratorial, preferencialmente dentro de um contexto clínico bem definido.
Glicina no aminograma plasmático
A dosagem da glicina faz parte do aminograma plasmático, exame utilizado na investigação de distúrbios:
Metabólicos
Neurológicos
Nutricionais
Mitocondriais
Valores de referência da glicina
Os valores podem variar conforme o método laboratorial, mas geralmente situam-se entre:
122 a 322 µmol/L em adultos
A interpretação deve considerar:
Idade
Ingestão proteica
Estado inflamatório
Contexto clínico geral
Glicina baixa no sangue: significado clínico
Níveis séricos reduzidos de glicina podem estar associados a:
Síndrome metabólica
Resistência à insulina
Inflamação crônica
Dieta pobre em proteínas estruturais
Estresse oxidativo elevado
Sempre falo que esses achados nunca devem ser interpretados isoladamente, mas integrados a outros marcadores metabólicos e clínicos.
Glicina alta no sangue: quando investigar
A elevação da glicina é menos frequente, porém clinicamente relevante. Pode indicar:
Erros inatos do metabolismo
Hiperglicinemia não cetótica
Disfunção renal
Alterações no metabolismo mitocondrial
Em recém-nascidos e lactentes, valores muito elevados exigem investigação neurológica imediata.
Glicina e erros inatos do metabolismo
A glicina é central no diagnóstico da hiperglicinemia não cetótica, uma condição metabólica rara e grave, caracterizada por:
Convulsões precoces
Letargia (cansaço extremo)
Atraso do desenvolvimento
Comprometimento neurológico progressivo
Nesses casos, a dosagem de glicina no plasma e no líquor é fundamental para o diagnóstico.
Suplementação de glicina: quando é considerada
A suplementação de glicina pode ser discutida em situações específicas, como:
Distúrbios do sono
Ansiedade leve a moderada
Saúde articular e da pele
Síndrome metabólica
Estresse oxidativo
Evidência científica atual
Possui bom perfil de segurança
Atua melhor em doses fisiológicas
Não substitui tratamento médico
Deve ser individualizada e acompanhada
Interação da glicina com outros aminoácidos
A glicina atua de forma integrada com outros aminoácidos importantes, como:
Serina — conversão metabólica direta
Glutamina — equilíbrio nitrogenado e imunometabolismo
Prolina — síntese e estabilidade do colágeno
Essa interação reforça a importância da glicina nos eixos neurológico, metabólico e estrutural, conforme a análise da nossa nutricionista, Leila Schreider, dentro de uma abordagem clínica integrada e baseada em evidências.
Glicina na prática clínica
A avaliação da glicina é especialmente útil em:
Distúrbios do sono e ansiedade
Avaliação metabólica avançada
Saúde musculoesquelética
Investigação de doenças neurológicas raras
Monitoramento do envelhecimento metabólico
Apesar de sua relevância, a glicina ainda é um marcador subestimado na prática clínica diária.
Conclusão
A glicina, embora classificada como um aminoácido não essencial, desempenha funções fundamentais na regulação do sistema nervoso, na síntese do colágeno e no equilíbrio metabólico.
Sua avaliação no aminograma plasmático oferece informações clínicas relevantes, especialmente em contextos de distúrbios do sono, alterações metabólicas, processos inflamatórios e condições neurológicas.
A interpretação adequada dos níveis de glicina, sempre integrada ao quadro clínico do paciente, contribui para uma abordagem mais precisa, individualizada e baseada em evidências na prática clínica.
Perguntas Frequentes
Sim. A glicina pode ser obtida por meio de alimentos ricos em proteínas, especialmente aqueles que contêm colágeno, como carnes, peixes, ovos e caldos de ossos.
Não. A glicina não engorda e não está associada ao ganho de peso. Pelo contrário, ela pode contribuir para o equilíbrio metabólico e a sensibilidade à insulina.
A glicina é um aminoácido, enquanto o colágeno é uma proteína estrutural composta por vários aminoácidos, sendo a glicina um dos principais.
Em doses fisiológicas e sob orientação profissional, a glicina pode ser utilizada diariamente, especialmente em contextos específicos como sono e saúde metabólica.
De forma geral, a glicina apresenta bom perfil de segurança, mas pessoas com doenças metabólicas raras ou insuficiência renal devem usá-la apenas com orientação médica.
Não. A glicina não substitui medicamentos. Ela atua como moduladora fisiológica do sono e pode ser utilizada como estratégia complementar, quando indicada.
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Lincoln Soledade, – Biomédico CRBM 41556/ES. Mestrando em Gestão em Saúde Pública. Especialista em Patologia Clínica e pós-graduado em Estética Avançada, atua desde 2018 na área de diagnóstico clínico hospitalar. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado à aplicação rigorosa do conhecimento científico para promover diagnósticos precisos, contribuindo significativamente para a qualidade do cuidado em saúde.

