Um spray nasal experimental, desenvolvido por uma equipe internacional de especialistas em imunologia, virologia e desenvolvimento de vacinas, está chamando a atenção da comunidade científica por um motivo ambicioso: ele pode representar um novo modelo de vacina universal, capaz de oferecer proteção prolongada contra diferentes vírus e bactérias respiratórias ao mesmo tempo.
Os resultados mais recentes, publicados na revista científica Science, indicam que a formulação conseguiu bloquear infecções virais e bacterianas por vários meses em testes laboratoriais, algo inédito na lógica tradicional das vacinas atuais.
Uma proposta diferente de tudo o que existe hoje
Diferentemente das vacinas convencionais — que utilizam antígenos específicos de um patógeno, como fragmentos de vírus ou bactérias —, essa nova abordagem não depende do reconhecimento de um microrganismo específico.
Em vez disso, os pesquisadores apostaram em uma estratégia mais ampla: estimular o sistema imunológico a entrar em um estado de vigilância prolongada, capaz de reagir rapidamente a diversos agentes infecciosos.
A fórmula do spray nasal combina três componentes principais:
Dois adjuvantes imunológicos potentes, responsáveis por ativar o sistema imune inato
Uma proteína derivada da clara do ovo, chamada ovalbumina, usada como um “alvo inofensivo” para ativar células T
Essa combinação cria uma resposta multivalente, duradoura e não dependente de um único patógeno.
O que os testes evidenciaram até agora
Nos experimentos descritos na Science, camundongos que receberam o spray nasal apresentaram um desempenho surpreendente:
Mantiveram o peso corporal estável
Não desenvolveram sinais graves de doença
Apresentaram baixa inflamação pulmonar, mesmo após exposição a doses não letais de diferentes variantes de coronavírus
Demonstraram resistência significativa a infecções bacterianas, como as causadas por Staphylococcus aureus, uma das principais causas de infecções hospitalares no mundo
Já os animais do grupo controle, que não receberam a vacina, adoeceram com maior frequência e apresentaram inflamação pulmonar mais intensa.
Por que essa vacina quebra o “modelo clássico” de imunização
As vacinas tradicionais funcionam como uma chave específica para uma fechadura específica. Elas ensinam o sistema imunológico a reconhecer apenas aquele vírus ou bactéria para o qual foram desenhadas.
O problema é que vírus respiratórios sofrem mutações constantes, o que exige atualizações frequentes, como ocorre com a gripe e, mais recentemente, com a COVID-19.
A nova vacina nasal propõe algo diferente: uma espécie de “chave mestra imunológica”, que não reconhece um inimigo específico, mas mantém o organismo em alerta contra diversos invasores.
Essa estratégia foi desenvolvida pela equipe liderada pelo imunologista Bali Pulendran, da Universidade de Stanford.
O segredo do coquetel imunológico
A chave do sucesso da vacina está na cooperação entre os dois grandes braços do sistema imunológico:
Imunidade inata: resposta rápida e ampla
Imunidade adaptativa: resposta específica e duradoura
Quando os adjuvantes são aplicados no nariz, eles funcionam como um sinal de alerta intenso para os macrófagos, células de defesa residentes nos pulmões.
Essas células:
Engolem vírus e bactérias
Eliminam células infectadas
Apresentam fragmentos desses invasores às células T
Já a ovalbumina, apesar de não representar uma ameaça real, desempenha um papel crucial: ela ativa as células T de forma inespecífica, sem direcioná-las a uma doença específica.
Uma vez ativadas, essas células T passam a enviar sinais químicos (citocinas) que mantêm os macrófagos constantemente ativados, criando um estado prolongado de vigilância imunológica.
Por que a proteção dura mais tempo
Os pesquisadores observaram algo essencial:
Quando apenas os adjuvantes eram usados, a proteção durava poucas semanas
Quando a ovalbumina era adicionada, a proteção pulmonar se estendia por meses
Isso acontece porque a imunidade adaptativa, mediada pelas células T, impede que o sistema inato “desligue” após a ameaça inicial, algo que normalmente ocorre nas infecções comuns.
Enquanto tentativas anteriores de estimular apenas a imunidade inata garantiam proteção por cerca de um mês, essa nova abordagem alcançou pelo menos três meses de resistência a desafios infecciosos repetidos.
A inspiração veio da vacina BCG
A ideia da vacina universal não surgiu do zero. Ela foi inspirada em observações antigas sobre a vacina BCG, usada contra a tuberculose.
Estudos comprovam que a BCG, aplicada em cerca de 100 milhões de bebês anualmente, oferece proteção cruzada contra diversas infecções além da tuberculose, por meses.
Pesquisas anteriores do próprio Pulendran, publicadas em 2023, demonstraram que a BCG induz uma resposta inata persistente nos pulmões, sustentada pela comunicação contínua com células T.
O novo spray nasal aplica esse mesmo princípio, mas de forma mais direcionada às doenças respiratórias.
Próximos passos: e os testes em humanos?
Até o momento, os resultados são pré-clínicos, ou seja, obtidos em modelos animais. Ensaios clínicos em humanos ainda não começaram, mas os pesquisadores já discutem adaptações importantes.
A principal delas é substituir a ovalbumina por proteínas derivadas de vírus respiratórios reais, como o SARS-CoV-2, para tornar a resposta ainda mais direcionada, sem perder o efeito amplo.
Pulendran resume a ambição do projeto com uma visão clara:
“Os cientistas imaginam um spray nasal simples que, usado em determinada época do ano, ajude o corpo a se defender de várias doenças respiratórias comuns.”
Um possível novo capítulo na imunização
Se os resultados forem confirmados em humanos, essa vacina nasal poderá:
Reduzir hospitalizações por doenças respiratórias
Simplificar campanhas de vacinação
Diminuir a transmissão comunitária
Representar um avanço histórico rumo a uma vacina universal respiratória
Por enquanto, a ciência avança com cautela, mas os dados já indicam que o futuro das vacinas pode não estar apenas nas agulhas — e sim no nariz.
Perguntas Frequentes
Não. A vacina em spray nasal ainda está em fase experimental e, até o momento, foi testada apenas em modelos laboratoriais. Ensaios clínicos em humanos ainda precisam ser realizados.
Não. Caso seja aprovada no futuro, a vacina nasal tende a atuar como complemento às vacinas existentes, e não como substituta imediata.
Enquanto vacinas tradicionais usam antígenos específicos de um patógeno, essa abordagem estimula o sistema imunológico de forma mais ampla, ativando defesas contra diferentes vírus e bactérias.
Em teoria, sim. Como a resposta imunológica não depende de um único antígeno, a estratégia pode oferecer proteção mesmo diante de variantes ou novos patógenos respiratórios.
Possivelmente. Ao fortalecer a imunidade nas mucosas nasais, o spray pode ajudar a bloquear o vírus logo na entrada, reduzindo a chance de transmissão, embora isso ainda precise ser confirmado em humanos.
Crianças, idosos e pessoas com maior risco de infecções respiratórias podem ser os principais beneficiados, especialmente pela facilidade de aplicação e pela proteção ampliada.
Como qualquer nova tecnologia, os riscos só poderão ser plenamente avaliados após estudos clínicos em humanos, que analisam segurança, efeitos adversos e duração da proteção.
- A universal vaccine strategy via mucosal immunity induction. Science. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/science.aea1260. Acesso em: 25 fev. 2026.
- CNN Brasil. Vacina em spray nasal promete proteção contra COVID-19, gripe e pneumonia. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/vacina-em-spray-nasal-promete-protecao-contra-covid-gripe-e-pneumonia/. Acesso em: 25 fev. 2026.

Lincoln Soledade, – Biomédico CRBM 41556/ES. Mestrando em Gestão em Saúde Pública. Especialista em Patologia Clínica e pós-graduado em Estética Avançada, atua desde 2018 na área de diagnóstico clínico hospitalar. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado à aplicação rigorosa do conhecimento científico para promover diagnósticos precisos, contribuindo significativamente para a qualidade do cuidado em saúde.

