O uso de medicamentos injetáveis para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade tem aumentado significativamente nos últimos anos. Entre eles, o Mounjaro® (tirzepatida) ganhou destaque por sua eficácia no controle glicêmico e na perda de peso. No entanto, como qualquer medicamento, seu uso pode estar associado a efeitos adversos, o que gera dúvidas frequentes entre pacientes e profissionais de saúde.
Uma das preocupações mais comuns envolve a possibilidade de pancreatite, uma inflamação do pâncreas que pode variar de quadros leves a situações mais graves. Embora esse evento seja considerado raro, ele está descrito na bula do medicamento, o que torna essencial conhecer os sinais de alerta, saber diferenciar efeitos colaterais comuns de sintomas preocupantes e entender quando procurar avaliação médica.
Este artigo tem caráter informativo e educativo, baseado em evidências científicas e diretrizes oficiais, sendo elaborado para esclarecer as principais dúvidas sobre a relação entre o uso do Mounjaro e a pancreatite.
O que a ciência diz sobre a tirzepatida e o pâncreas
A tirzepatida é um medicamento que atua como agonista duplo dos receptores GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) e GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose). Esse mecanismo promove melhor controle da glicemia, redução do apetite e perda de peso corporal.
Os receptores de GLP-1 estão presentes em diferentes tecidos do organismo, incluindo o trato gastrointestinal e o pâncreas. Por esse motivo, desde os primeiros estudos com essa classe de medicamentos, pesquisadores passaram a investigar uma possível associação com eventos pancreáticos, como a pancreatite.
Os ensaios clínicos e dados de farmacovigilância indicam que a pancreatite associada à tirzepatida (Mounjaro) é um evento raro, mas potencialmente possível. Por isso, o monitoramento clínico e a orientação adequada ao paciente são fundamentais, especialmente nas fases iniciais do tratamento ou após ajustes de dose.
Mounjaro ataca o pâncreas? Entenda o risco real
Uma pergunta comum entre usuários é se o Mounjaro “ataca” o pâncreas. Do ponto de vista científico, não há evidência de que o medicamento cause agressão direta ao órgão rotineiramente.
O que se sabe é que, em situações específicas, o uso de agonistas de GLP-1 e GIP pode estar associado a inflamação pancreática, especialmente em indivíduos com fatores de risco preexistentes. Entre esses fatores, destacam-se histórico de pancreatite, consumo excessivo de álcool, hipertrigliceridemia e doenças da vesícula biliar.
Por esse motivo, a avaliação individualizada por um médico endocrinologista é essencial antes do início do tratamento e durante o acompanhamento clínico.
Principais sintomas de pancreatite em pacientes que usam Mounjaro
É importante destacar que os sinais descritos a seguir não confirmam, isoladamente, o diagnóstico de pancreatite. Eles funcionam como alerta clínico para o paciente procurar avaliação médica adequada.
1. Dor abdominal persistente e intensa
A dor abdominal é o sintoma mais característico da pancreatite. Geralmente, trata-se de uma dor localizada na parte superior do abdômen, de intensidade moderada a forte, que pode surgir progressivamente.
Diferente do desconforto gastrointestinal leve, comum no início do uso do Mounjaro, essa dor costuma ser contínua, não melhora com repouso e pode se intensificar com o passar das horas.
2. Dor abdominal com irradiação para as costas
Outro sinal sugestivo é a dor que irradia para a região das costas, especialmente a região lombar. Muitos pacientes relatam uma sensação profunda e persistente, difícil de aliviar com mudanças de posição.
Esse tipo de dor merece atenção especial quando surge associada a náuseas intensas ou mal-estar geral.
3. Náuseas e vômitos intensos e persistentes
Náuseas e enjoos leves são efeitos colaterais comuns da tirzepatida, especialmente nas primeiras semanas de tratamento. No entanto, a pancreatite costuma causar náuseas mais intensas, acompanhadas de vômitos frequentes.
A diferença principal está na intensidade, na persistência dos sintomas e na dificuldade para se alimentar ou ingerir líquidos, o que não é típico dos efeitos gastrointestinais leves.
4. Elevação das enzimas pancreáticas (amilase e lipase)
O diagnóstico de pancreatite é confirmado por meio de exames laboratoriais, especialmente pela elevação das enzimas pancreáticas, como a amilase e, principalmente, a lipase, sendo mais específica.
Pacientes que apresentam dor abdominal suspeita durante o uso do Mounjaro devem realizar exames de sangue conforme orientação médica. A interpretação desses resultados deve sempre ser feita por um profissional de saúde.
5. Febre, mal-estar geral e piora progressiva dos sintomas
Em quadros mais avançados, a inflamação pancreática pode provocar febre, sensação intensa de mal-estar, fadiga e até aumento da frequência cardíaca.
Esses sinais indicam uma resposta inflamatória mais ampla do organismo e exigem avaliação médica imediata, preferencialmente em ambiente hospitalar.
Diferença entre enjoo comum e pancreatite ao usar Mounjaro
Essa é uma dúvida frequente entre os pacientes. O enjoo comum associado ao Mounjaro costuma ser leve a moderado, aparece principalmente no início do tratamento e tende a melhorar com o tempo.
Já a pancreatite se caracteriza por sintomas mais intensos, persistentes e progressivos, geralmente associados à dor abdominal significativa e alterações laboratoriais. Sempre que houver dúvida, a orientação médica é indispensável.
O que fazer em caso de dor forte após a injeção de Mounjaro?
Ao apresentar dor abdominal intensa ou persistente após o uso do medicamento, o paciente deve:
Não aplicar novas doses até avaliação médica
Procurar atendimento médico quanto antes
Realizar exames laboratoriais e, se indicado, exames de imagem
A decisão sobre suspender ou manter o tratamento deve ser feita exclusivamente por um médico, após análise clínica adequada.
Quem tem histórico de pancreatite pode usar Mounjaro?
De forma geral, pessoas com histórico de pancreatite devem ter cautela. A maioria das diretrizes recomenda que o uso da tirzepatida nesses casos seja avaliado de forma individualizada.
O médico irá considerar os benefícios do tratamento, os riscos potenciais e a existência de alternativas terapêuticas mais seguras.
Exames utilizados na investigação da pancreatite
Os principais exames solicitados na suspeita de pancreatite incluem:
Dosagem de amilase sérica
Dosagem de lipase sérica
Ultrassonografia abdominal
Tomografia computadorizada, em casos selecionados
Esses exames ajudam a confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade do quadro, sempre sob orientação médica.
Considerações finais
O Mounjaro é um medicamento eficaz e amplamente estudado, com benefícios comprovados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Embora a pancreatite seja um evento raro, conhecer os sinais de alerta, respeitar o acompanhamento médico e buscar avaliação precoce diante de sintomas suspeitos são medidas essenciais para um uso seguro.
A informação baseada em evidências é uma aliada importante na tomada de decisões em saúde.
Aviso importante: este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Ele não substitui a avaliação médica, o diagnóstico ou o tratamento realizado por um profissional de saúde. Em caso de sintomas persistentes, intensos ou preocupantes, procure atendimento médico imediatamente.
Perguntas Frequentes
Não. A dor nas costas pode ter diversas causas, incluindo musculares ou gastrointestinais. Quando ocorre junto com dor abdominal intensa, náuseas persistentes ou mal-estar, deve ser avaliada por um médico.
Sim. Alterações leves dessas enzimas podem ocorrer sem pancreatite clínica. A interpretação dos exames deve sempre considerar os sintomas e a avaliação médica.
Histórico de pancreatite aguda ou crônica exige avaliação cuidadosa. A decisão de uso depende do risco-benefício analisado pelo médico responsável.
Os estudos clínicos disponíveis indicam segurança para uso prolongado quando há acompanhamento médico regular e indicação adequada.
Na maioria dos casos, a pancreatite aguda não evolui para forma crônica. O risco depende da gravidade, da causa e do tratamento realizado.
Sim. A dor abdominal leve a moderada é um efeito gastrointestinal comum, especialmente no início do tratamento, e geralmente não está relacionada à pancreatite.
A tirzepatida atua em dois receptores (GLP-1 e GIP). As diferenças de risco ainda estão sendo estudadas, e o acompanhamento médico é essencial em qualquer opção.
Os sintomas não costumam surgir imediatamente. Eles podem aparecer dias ou semanas após o início do tratamento ou após ajustes de dose.
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Lincoln Soledade, – Biomédico CRBM 41556/ES. Mestrando em Gestão em Saúde Pública. Especialista em Patologia Clínica e pós-graduado em Estética Avançada, atua desde 2018 na área de diagnóstico clínico hospitalar. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado à aplicação rigorosa do conhecimento científico para promover diagnósticos precisos, contribuindo significativamente para a qualidade do cuidado em saúde.

